28 de out. de 2008

FIichamento do Livro a Idade Medieval: Nascimento do Ocidente

APRESENTAÇÃO
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O período entre os séculos IV e XVI é tradicionalmente conhecido por Idade das Trevas, Idade da Fé ou, com mais freqüência, Idade Média. Todos eles rótulos pejorativos, que escondem a importância daquela época na qual surgiram os traços essenciais da civilização ocidental. Nesta, mesmo países surgidos depois daquela fase histórica - caso do Brasil - têm muito mais de medieval do que à primeira vista possa parecer. Olhar para a Idade Média é estabelecer contato com coisas que nos são ao mesmo tempo familiares e estranhas, é resgatar uma infância longínqua que tendemos a negar mas da qual somos produto. De fato, para o homem do Ocidente atual compreender em profundidade a Idade Média é um exercício imprescindível de autoconhecimento.
Abaixo apresentamos uma resenha textual.
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FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade média: nascimento do ocidente. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Brasiliense, 2001.
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Introdução: O (Pré)Conceito De Idade Média
Falarmos em Idade Antiga ou Média representa uma rotulação a posteriori, uma satisfação da necessidade de se dar nome aos momentos passados, foi o século XVI que elaborou tal conceito, um desprezo não disfarçado em relação aos séculos localizados entre a Antigüidade Clássica e o próprio século XVI.
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A Idade Média Para Os Renascentistas E Iluminista
O italiano Francesco Petrarca (1304-1374) já se referira ao período anterior como de tenebrae: nascia o mito historiográfico da Idade das Trevas.
A arte medieval, por fugir aos padrões clássicos, também era vista como grosseira daí o grande pintor Rafael Sanzio (1483-1520) chamá-la de “gótico”, termo então sinônimo de “bárbara”.
O sentido básico mantinha-se renascentista: a “Idade Média” teria sido uma interrupção no progresso humano, inaugurado pelos gregos e romanos e retomado pelos homens do século XVI. Ou seja, também para o século XVII os tempos “medievais” teriam sido de barbárie, ignorância e superstição.
O século XVIII, antiaristocrático e anticlerical, acentuaram o menosprezo à Idade Média, vista como momento áureo da nobreza e do clero. A filosofia da época, chamada de iluminista por se guiar pela luz da Razão, censurava, sobretudo a forte religiosidade medieval, o pouco apego da Idade Média a um estrito racionalismo e o peso político de que a Igreja então desfrutara.
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A Idade Média Para Os Românticos
O Romantismo da primeira metade do século XIX inverteu, contudo, o preconceito em relação à Idade Média. O ponto de partida foi à questão da identidade nacional, que ganhara forte significado com a Revolução Francesa. A nostalgia romântica pela Idade Média fazia com que ela fosse considerada o momento de origem das nacionalidades, satisfazendo assim os novos sentimentos do século XIX.
Vista como época de fé, autoridade e tradição, a Idade Média oferecia um remédio à insegurança e aos problemas decorrentes de um culto exagerado ao cientificismo.
Essa Idade Média dos escritores e músicos românticos era tão preconceituosa quanto à dos renascentistas e dos iluministas. Para estes dois, ela teria sido uma época negra, a ser relegada da memória histórica. Para aqueles, um período esplêndido, um dos grandes momentos da trajetória humana, algo a ser imitado, prolongado.
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A Idade Média Para O Século XX
Passou-se a tentar ver a Idade Média como os olhos dela própria, não com os daqueles que viveram ou vivem noutro momento. Entendeu-se que a função do historiador é compreender, não a de julgar o passado. Logo, o único referencial possível para se ver a Idade Média é a própria Idade Média.
Ao examinar qualquer período do passado, o estudioso necessariamente trabalha com restos, com fragmentos — as fontes primárias, no jargão dos historiadores — desse passado, que portanto jamais poderá ser integralmente reconstituído. Ademais, o olhar que o historiador lança sobre o passado não pode deixar de ser um olhar influenciado pelo seu presente.
O período que se estendeu de princípios do século IV a meados do século VIII sem dúvida apresenta uma feição própria, não mais “antiga” e ainda não claramente “medieval”. Apesar disso, talvez seja melhor chamá-la de Primeira Idade Média do que usar o velho rótulo de Antigüidade Tardia, pois nela teve início a convivência e a lenta interpenetração dos três elementos históricos que comporiam todo o período medieval. Elementos que, por isso, chamamos de Fundamentos da Idade Média: herança romana clássica, herança germânica, cristianismo.
Nesse mundo em transformação, a penetração germânica intensificou as tendências estrutural anteriores, mas sem alterá-las. Foi o caso da pluralidade política substituindo a unidade romana, da concepção de obrigações recíprocas entre chefe e guerreiros, do deslocamento para o norte do eixo de gravidade do Ocidente, que perdia seu caráter mediterrânico. O cristianismo, por sua vez, foi o elemento que possibilitou a articulação entre romanos e germanos, o elemento que ao fazer a síntese daquelas duas sociedades forjou a unidade espiritual, essencial para a civilização medieval.
Europa católica entrou em outra fase, a Alta Idade Média (meados do século VIII - fins do X). Foi então que se atingiu, ilusoriamente, uma nova unidade política com Carlos Magno, mas sem interromper as fortes e profundas tendências centrífugas que levariam posteriormente à fragmentação feudal.
Graças a esse temporário encontro de interesses entre a Igreja e o Império, ocorreu certa recuperação econômica e o início de uma retomada demográfica. Iniciou-se então a expansão territorial cristã sobre regiões pagãs — que se estenderia pelos séculos seguintes — reformulando o mapa civilizacional da Europa.
A Idade Média Central (séculos XI-XIII) que então começou foi, grosso modo, a época do feudalismo, cuja montagem representou uma resposta à crise geral do século X. A sociedade cristã ocidental conheceu uma forte expansão populacional c uma conseqüente expansão territorial, da qual as Cruzadas são a faces mais conhecida. Graças à maior procura de mercadorias e à maior disponibilidade de mão-de-obra, a economia ocidental foi revigorada e diversificada. A produção cultural acompanhou essa tendência nas artes, na literatura, no ensino, na filosofia, nas ciências. Aquela foi, portanto, em todos os sentidos, a fase mais rica da Idade Média, daí ter merecido em todos os capítulos deste livro uma maior atenção.
A Baixa Idade Média (século XIV - meados do século XVI) com suas crises e seus rearranjos, representou exatamente o parto daqueles novos tempos, a Modernidade. A crise do século XIV, orgânica, global, foi uma decorrência da vitalidade e da contínua expansão (demográfica, econômica, territorial) dos séculos XI-XIII, o que levara o sistema aos limites possíveis de seu funcionamento.
Em suma, o ritmo histórico da Idade Média foi se acelerando, e com ele nossos conhecimentos sobre o período. Sua infância e adolescência cobriram boas parte de sua vida (séculos IV-X), no entanto as fontes que temos sobre elas são comparativamente poucas.
Sua maturidade (séculos XI-XIII) e senilidade (século XIV-XVI) deixaram, pelo contrário, uma abundante documentação.
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A Idade Media Para Os Medievais
As primeiras sociedades só registravam o tempo biologicamente, sem transformá-lo em História, portanto sem consciência de sua irreversibilidade. Isso porque, para elas, viver no real era viver segundo modelos extra-humanos, arquetípicos. Assim, tanto o tempo sagrado (dos rituais) quanto o profano (do cotidiano) só existiam por reproduzir atos ocorridos na origem dos tempos.
Tal concepção sofreu sua primeira rejeição com o judaísmo, que vê em Iavé não uma divindade criadora de gestos arquetípicos, mas uma personalidade que intervém na História. O cristianismo retornou e desenvolveu essa idéia, enfatizando o caráter linear da História, com seu ponto de partida (Gênese), de inflexão (Natividade) e de chegada (Juízo Final).
Pelo menos até o século XII os medievos não sentiam necessidade de maior precisão no cômputo do tempo, o que expressava e acentuava a falta de um conceito claro sobre sua própria época. De maneira geral, prevalecia o sentimento de viverem em “tempos modernos”, devido à consciência que tinham do passado, dos “tempos antigos”, pré-cristãos. Estava também presente a idéia de que se caminhava para o Fim dos Tempos, não muito distante.
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Capitulo I – As Estruturas Demográficas
O surgimento da Demografia Histórica, há menos de cinco décadas, enriqueceu consideravelmente o arsenal do historiador na sua tarefa de compreensão do passado.
A Idade Média estava na etapa que os especialistas chamam de Antigo Regime Demográfico, típico das sociedades agrárias, pré-industriais: alta taxa de natalidade e alta taxa de mortalidade. Em razão disso, a conjugação de certos fatores (estiagens, enchentes, epidemias etc.) por poucos anos seguidos alterava o quadro demográfico ao elevar ainda mais a mortalidade. Ou, pelo contrário, a ausência de eventos daquele tipo rapidamente produzia um saldo populacional positivo.
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Retratação Da Primeira Idade Media
Do ponto de vista demográfico, a primeira fase medieval foi um prolongamento da situação do Império Romano, cuja população conhecera um claro recuo desde o século II. Com a crescente desorganização do aparelho estatal romano, foram rareando as importações de gêneros alimentícios que tinham por séculos permitidos a existência de uma grande população urbana. As cidades começaram a se esvaziar, cada região tentou passar a produzir tudo àquilo de que necessitasse, Tal fenômeno paradoxalmente aumentou a insegurança, pois bastava uma má colheita para que a mortalidade naquele local rapidamente se elevasse, devido às dificuldades em obter alimentos em outras regiões.
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A Relativa Ocupação Da Alta Idade Média
Por meio de indícios esparsos na documentação — de interpretação problemática — indica certa retomada demográfica na segunda metade do século VIII. Esse fato talvez esteja ligado à reorganização promovida pelos Carolíngios, e talvez ajude mesmo a explicar a expansão territorial realizada por Carlos Magno. Contudo, essa recuperação foi desigual no
tempo e no espaço. Em muitos locais, em muitos momentos, a fome e a mortalidade continuavam acentuadas.
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A Expansão Da Idade Media Central
Apesar da inexistência de uma documentação quantitativa, é inquestionável aquele crescimento na Idade Média Central, como se percebe por cinco claros indícios: um acentuado movimento migratório; o movimento de arroteamentos, que fazia recuar as florestas, os terrenos baldios, as zonas pantanosas; aumento do preço da terra e do trigo; acentuado crescimento da população urbana naquele período; transformações sofridas pela arquitetura religiosa.
Todos esses testemunhos apontam, portanto, para um forte crescimento demográfico entre os séculos XI e XIII, mas é extremamente difícil quantificá-lo. De maneira geral, a documentação medieval fornece poucos dados populacionais que permitem um tratamento estatístico.
Portanto, mesmo sem se poder quantificar com maior rigor e precisão a expansão demográfica da Idade Média Central, ela é inegável. Naquele período dois fatores que anteriormente elevavam a mortalidade tiveram seu alcance reduzido. O primeiro deles foi à ausência de epidemias, com o recuo da peste e da malária, continuando apenas a lepra a ter certa intensidade.
O segundo fator a considerar é o tipo de guerra, que não envolvia grandes tropas de combatentes anônimos, como nas legiões romanas ou nos exércitos nacionais modernos: a guerra feudal era feita por pequenos bandos de guerreiros de elite, os cavaleiros.
Guerra feudal não objetivava a morte do adversário, apenas sua captura. Como uma das obrigações vassálicas era pagar o resgate do senhor aprisionado, c como na pirâmide hierárquica feudal quase todo nobre, além de ser vassalo de outros, tinha seus próprios vassalos, capturar um inimigo na guerra era obter um rendimento proporcional à importância do prisioneiro.
Outro fator que contribuiu para a expansão demográfica medieval foi à suavização do clima. Na Europa ocidental o clima tornou-se mais seco e temperado do que atualmente, sobretudo entre 750 e 1215. A viticultura pôde então expandir-se em regiões anteriormente impróprias, como a Inglaterra. A paisagem de alguns locais foi alterada e humanizada, como a Groenlândia, que fazia jus a seu nome (literalmente, “terra verde”) e apenas no século XIII, em virtude de novas mudanças climáticas, passou a ter icebergs em sua direção, tornando-se inóspita.
O período mais quente e seco não apenas transformou determinadas áreas em cultiváveis e habitáveis como contribuiu para dificultar a difusão da peste.
Por último, ajuda a explicar o crescimento populacional dos séculos X-XIII o surgimento ou difusão de uma série de inovações nas técnicas agrícolas. Dentre os aperfeiçoamentos técnicos da época, três exerceram uma ação direta sobre a elevação da produtividade agrícola: a nova atrelagem dos animais, a charrua pesada e o sistema trienal.
As inovações tecnológicas não apenas produziram uma maior quantidade de alimentos como, sobretudo, uma melhor qualidade. Até aquela época a dieta era mal balanceada, porque, baseada em cereais, fornecia muitas calorias e hidrato de carbono e poucas proteínas e vitaminas. A alteração então ocorrida na dieta talvez explique a mudança na proporção entre população masculina e feminina, favorável à primeira na Alta Idade Média e à segunda posteriormente.
Com a introdução de leguminosas na dieta e uma presença mais assídua de carne, peixe, ovos e queijo, a mortalidade feminina diminuiu. Tal fato teve ampla repercussão, contribuindo até mesmo para a valorização social da mulher.
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O Ressurgimento Da Peste Na Baixa Idade Media
O crescimento populacional acabou por se revelar excessivamente elevado para as condições européias de então. Durante o auge daquele fenômeno tinham sido ocupadas terras marginais, de menor fertilidade, que se esgotavam em poucos anos, baixando a produtividade média e desestabilizando o frágil equilíbrio produção-consumo.
O aumento populacional tinha implicado a derrubada de grandes extensões florestais, já que a madeira era o principal combustível e material de construção. Isso ajuda a explicar as chuvas torrenciais que em 1315-1317 atingiram a maior parte da Europa ao norte dos Alpes, exatamente nos locais de grande devastação florestal.
Em Antuérpia, importante centro distribuidor de cereais, o trigo subiu 320% em sete meses. A fome fazia grande quantidade de vítimas. O canibalismo tornou-se comum. Diferentes epidemias agravavam a situação. Impulsionada pela fome, muita gente vagava em busca do que comer, levando consigo as epidemias e a desordem.
A crise demográfica da Baixa Idade Média, que teve seu ponto crucial no ressurgimento da peste, então conhecida por peste negra. Ela apresentava-se de duas formas. A bubônica (assim chamada por provocar um bubão, um inchaço) tinha uma letalidade (relação entre os atingidos pela doença e os que morrem dela) de 60% a 80%, com a maioria falecendo após três ou quatro semanas. A peste pneumônica, transmitida de homem a homem, tinha uma letalidade de 100%, fazendo suas vítimas depois de apenas dois ou três dias de contraída a doença.
Democrática e igualitária, a peste atingia indiferentemente a todos. Até 1670, a Europa foi atingida todo ano. No período crítico, o da chamada peste negra, em 1348-1350, as perdas humanas variaram, conforme a região, de dois terços a um oitavo da população.
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Capitulo II – As Estruturas Econômicas
O prestígio ímpar que a História Econômica desfrutou por longo tempo deixou profundas marcas na produção medievalística. Sobretudo porque a impossibilidade de realizar estudos quantitativos como os que eram feitos para períodos históricos mais recentes, levou ao desenvolvimento de metodologias próprias. A historiografia especializada desenvolveu então trabalhos baseados no qualitativo (indícios, tendências, características), que elucidam melhor a economia medieval do ponto de vista da própria época.
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Retração E Estagnação Até O Século X
Do ângulo econômico, os séculos IV-X caracterizou por uma pequena produtividade agrícola e artesanal, conseqüentemente uma baixa disponibilidade de bens de consumo e a correspondente retração do comércio e portanto da economia monetária. Paralelamente, existiam pequenas e médias propriedades, ainda que aos poucos elas fossem absorvidas pelas villae. De qualquer forma, estas são mais bem conhecidas e predominavam naquele território que era o centro de gravidade de então, daí porque seja justificável falar em economia agrária dominial.
Esta girava em torno da divisão da área em duas partes. A primeira, chamada na época de terra indominicata (ou de reserva senhorial pelos historiadores), era explorada diretamente pelo senhor. Ali estava sua casa, celeiros, estábulos, moinhos, oficinas artesanais, pastos, bosques e terra cultivável. A segunda parte era a terra mansionaria, ou seja, o conjunto de pequenas explorações camponesas, cada uma delas designada pelos textos a partir do século VII por mansus. Cada manso era a menor unidade produtiva e fiscal do domínio. Dele uma família camponesa tirava sua subsistência, e por ter recebido tal concessão devia certas prestações ao senhor. Os mansi serviles, ocupados por escravos, deviam encargos mais pesados que os mansi ingenuiles, possuídos por camponeses livres.
Apesar de o fundamento da economia dominial estar na prestação de serviço na reserva senhorial por parte de camponeses livres mas dependentes, não se pode esquecer da mão-de-obra escrava. Tudo indica que a escravidão ainda era praticada em boa parte do Ocidente cristão, especialmente na Inglaterra, Alemanha, Itália e Catalunha. Mas é inegável que se generalizava então à figura dos servi casati, escravos estabelecidos e fixados num pedaço de terra. Dessa forma a própria palavra servus (escravo) passou a designar outra realidade jurídica, expressando aquela transformação socioeconômica — a do servo.
A produção dos domínios não apresentava grandes novidades em relação à agricultura da Antigüidade. A terra era trabalhada quase sempre no sistema bienal ou trienal.
O setor secundário ressentia-se da fraqueza demográfica e da medíocre produção agrícola. O primeiro fator roubava-lhe mão-de-obra e especialmente consumidores. O segundo limitava o fornecimento de matérias-primas. O artesanato dos séculos IV-X estava concentrado nos domínios, que com sua tendência à auto-suficiência procurava produzir ali mesmo tudo que fosse possível. A mão-de-obra era predominantemente escrava, vivendo na terra indominicata daquilo que o senhor lhe entregava, trabalhando nas oficinas com ferramentas e matérias-primas fornecidas por ele. A partir do século VIII havia também um pequeno grupo de artesãos assalariados, que se deslocavam de domínio em domínio.
O artesanato urbano, por sua vez, estava limitado pelas condições das cidades da época.
O setor terciário limitava-se praticamente ao comércio.
O comércio interno também se viu limitado, mas não paralisado. Se as dificuldades de produção, de um lado, restringiam as trocas por gerar poucos excedentes, de outro lado tornavam necessário que uma região com problemas temporários procurasse determinados produtos básicos em outras. Quando um domínio tinha certo excedente, ele era comercializado, diante da impossibilidade de se estocar.
Das três funções atribuídas à moeda, apenas uma foi importante naquele período. Primeiramente, ela é instrumento de medida de valor, ou seja, um padrão para medir o valor de bens e serviços adquiríveis, simplificando a relação pela qual determinada mercadoria pode ser trocado por outra. Em segundo lugar, a moeda é instrumento de troca, porque, não sendo ela própria consumível, pode, graças à sua aceitabilidade geral, servir de intermediária entre bens que se quer trocar. Por fim, ela é instrumento de reserva de valor, já que sem perder as funções anteriores pode ser guardada para a qualquer momento satisfazer certas necessidades. Este papel da moeda foi acentuado nos séculos IV-X devido à pequena disponibilidade de bens.
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O Crescimento Dos Séculos XI-XIII
A Idade Média Central conheceu importantes mudanças, a passagem da agricultura dominial para a senhorial. Havia dois tipos básicos delas, ambas de concessão pouco onerosa para o camponês, a censive e a champart. Na primeira, mais comum e difundida, em troca do usufruto da terra o camponês devia uma pequena renda fixa, o censo, pago em dinheiro ou em espécie. Na tenência champart (de campi pars, “parte da colheita”), a renda devida pelo camponês ao senhor não era fixa, mas proporcional ao resultado da colheita. De maneira geral, a taxa era de 10% na triticultura, de 16% a 33% na viticultura e na criação.
Não só os lotes camponeses viram sua área diminuir na Idade Média Central. A reserva senhorial também se viu reduzida em razão de vários fatores. Primeiro, a necessidade de criação de novas tenências camponesas, o que apenas o desmembramento dos mansos não fazia na quantidade desejada. Segundo, o progresso das técnicas agrícolas permitia ao senhor obter maior produção com menos terra. Terceiro, os rendimentos senhoriais vinham então bem mais do exercício dos direitos de ban do que da exploração direta do solo (daí as baixas exigências feitas aos camponeses em troca de suas tenências). Quarto, na nova ordem social que se implantava desde fins do século X — o feudalismo — para estabelecer relações de vassalagem o senhor cedia terras sob forma de feudo.
Não se deve, portanto, confundir senhorio e feudo. O primeiro era a base econômica do segundo, este a manifestação político-militar daquele. O senhorio era um território que dava a seu detentor poderes econômicos (senhorio fundiário) ou jurídico-fiscais (senhorio banal), muitas vezes ambos ao mesmo tempo. O feudo era uma cessão de direitos, geralmente mas não necessariamente sobre um senhorio. Havia regiões senhorializadas e não feudalizadas (como a Sardenha), mas não existiam regiões feudalizadas sem ser senhorializadas.
Em razão disso, o regime de mão-de-obra também se modificou em relação ao da agricultura dominial. A escravidão praticamente desapareceu no norte europeu, sobrevivendo apenas em algumas regiões mediterrânicas. O segmento de trabalho assalariado expandiu-se, em especial no século XII, graças ao barateamento da mão-de-obra resultante do aumento populacional. O servo tornou-se o principal tipo de trabalhador, complementando um processo bem anterior.
Em muitas regiões difundiu-se a prática de transformar a obrigação de serviços em pagamento monetário, com o qual o senhor contratava assalariados, cujo trabalho rendia o dobro do servil.
A produção cresceu em virtude de uma maior quantidade de mão-de-obra (incremento demográfico) trabalhando sobre uma área mais extensa (desbravamento de florestas e terrenos baldios). Mas também graças à difusão de diferentes técnicas: sistema trienal, charrua, força motriz animal, adubo mineral, moinho de água, moinho de vento.
Uma segunda transformação importante ocorrida nos séculos XI-XIII foi possibilitada pela existência de um excedente agrícola, o revigoramento do comércio. Este passou a desempenhar um papel central na vida do Ocidente, com repercussão muito além da esfera econômica.
Uma terceira transformação econômica da Idade Média Central, podemos chamar de Revolução Industrial medieval. Seu ponto de partida foi o crescimento demográfico e comercial, fomentador do desenvolvimento urbano. Estimuladas pela chegada de camponeses que conseguiam romper os laços servis, as cidades localizadas próximas a rios ou estradas freqüentadas por comerciantes logo começaram a crescer.
Com presença mais ou menos generalizada, sem dúvida as duas maiores indústrias medievais foram a da construção e a têxtil. A primeira delas beneficiou-se não só do crescimento populacional, mas também da prática social ostentatória que levava o clero e a aristocracia laica a construir cada vez mais e maiores igrejas, mosteiros, castelos. Buscando superar sua origem humilde, também a burguesia freqüentemente erguia construções imponentes.
A produção industrial nas cidades estava organizada em associações profissionais que chamamos de corporações de ofício, conhecidas na Idade Média apenas por “ofícios” (métiers na França, ghilds na Inglaterra, Innungen na Alemanha, arti na Itália). Suas origens são controvertidas, mas as razões para o agrupamento são claras: religiosa, daí muitas vezes ter derivado de confrarias, isto é, de associações que desde o século X existiam para cultuar o santo patrono de uma determinada categoria profissional e para praticar caridade recíproca entre seus membros; econômica, procurando garantir para eles o monopólio de determinada atividade; político-social, com a plebe de artesãos tentando se organizar diante do patriciado mercador que detinha o poder na cidade.
Em cada oficina o mestre trabalhava com alguns outros artesãos. Os jornaleiros (ou companheiros) eram assalariados que ganhavam em dinheiro e em espécie, pois viviam na casa do mestre. Os aprendizes, apenas um ou dois por oficina, eram adolescentes que procuravam iniciar-se nos segredos da profissão, vivendo para isso ao lado do mestre e pagando a ele pelo aprendizado, pelo alojamento e pela alimentação.
Outra importante transformação ocorrida na Idade Média Central foi uma acentuada monetarização da economia. Um primeiro problema era a grande diversidade, de moedas senhoriais, cada uma delas circulando numa área restrita. Um segundo problema era o baixo valor das espécies, resultado da reforma monetária carolíngia do século VIII, que implantara o monometalismo de prata: o denarius, moeda de pequeno valor, adequava-se melhor àquela economia pouco produtiva e de lenta circulação.
De um lado, a solução veio do fortalecimento do poder monárquico que então começava a ocorrer. De outro, os metais preciosos que tinham sido entesourados foram aos poucos reentrando em circulação. Graças à expansão mercantil, entre início do século XII e meada do século XIII um afluxo de ouro muçulmano contribuiu para alargar o estoque metálico ocidental. Graças às novas técnicas de mineração, cresceu bastante a produção de prata da Europa central.
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O Pré-Capitalismo Medieval
Em suma, a Idade Média Central foi uma época de mudanças, de expansão econômica, o que levou parte da historiografia por muito tempo a falar num “capitalismo medieval”. Contudo, adotando-se uma definição ampla de capitalismo sistema econômico centrado na posse privada de capital (mercadorias, máquinas, terras, dinheiro, conhecimento técnico) empregado de maneira a se reproduzir continuamente, ficando os desprovidos dele obrigados a vender sua força de trabalho — poderíamos talvez aceitar sua existência nos últimos séculos da Idade Média. Ele coexistia com o sistema doméstico, representado por pequenos artesãos independentes, e com o sistema senhorial, baseado em mão-de-obra dependente.
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A Depressão De Fins Da Idade Média
A Baixa Idade Média, por fim, inaugurou um período de crise generalizada, facilmente perceptível no aspecto econômico. Sem dúvida, podemos afirmar que após uma fase A de crescimento econômico (1200-1316) a Europa ocidental entrou numa fase B depressiva, que se estenderia até fins do século XV no sul e princípios do XVI no centro e no norte.
De qualquer forma, a crise resultou dos próprios princípios da economia extensiva e predatória da fase A. ela fundamentava-se em N (recursos naturais) e T (força de trabalho) abundantes, e um K (capital) proporcionalmente pequeno. Ou seja, enquanto ainda havia terras férteis disponíveis e mão-de-obra em quantidade para trabalhá-las, o sistema funcionou bem. Mas a riqueza social global pouco crescia por falta de reinvestimento. Logo, como N e T não poderiam crescer indefinidamente, mais cedo ou mais tarde viria à crise.
No setor primário, a produção era relativamente estática (limites técnicos da agricultura medieval) e o consumo dinâmico (crescimento populacional). No setor secundário, cada indivíduo gastava mais com alimentação e menos no consumo de bens industriais. O setor terciário ressentiu-se disso tudo, ocorrendo uma redução da margem de lucro tanto das atividades comerciais quanto das financeiras.
Uma das maiores fragilidades e fonte de graves problemas econômicos eram as constantes mutações monetárias empreendidas pelos soberanos. Sempre necessitados de dinheiro, os monarcas diminuíam a proporção de metal precioso das moedas e mantinham seu valor nominal, cunhando assim um maior número de peças com a mesma quantidade de metal nobre.
As causas dessa política monetária eram várias. Uma, as necessidades geradas pela guerra, pela própria retração comercial, a escassez metálica, a lentidão da circulação monetária, da procura, por fim, o entesouramento.
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Capítulo III - As estruturas políticas
Por muito tempo a História Política teve seus estudos voltados apenas para a camada dirigente. O primeiro passo na direção dessa Nova História Política foi dado em 1924 por Marc Bloch com uma obra tão pioneira, Os reis taumaturgos. Desde então, nessa sua nova roupagem, a História Política não se preocupa mais em descrever dinastias, reinados e batalhas. Ela coloca a ênfase em dois principais campos de estudo, o papel do imaginário na política e as relações entre nação e Estado.
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Política e imaginário
Seguindo os antropólogos, sociólogos e politicólogos, os historiadores passaram a ver a política como à forma básica de organização de qualquer grupo humano, como o instrumento minimizador dos conflitos inerentes a toda sociedade.
De fato, nas sociedades arcaicas, com visão monista do universo, sem fazer distinção entre natural e sobrenatural, indivíduo e sociedade, a realeza desempenhava um papel harmonizador, integrador do homem no cosmos. Na Idade Média o monarca, sem ser deus ou sequer sacerdote, como nas civilizações da Antigüidade, tinha inquestionável caráter sagrado.
Todo rei para ser visto como tal precisava ser submetido ao rito da unção com óleo, sacralizava o monarca, tornava-o um eleito de Deus.
Outros interessantes exemplos das relações entre política e imaginário têm nos reis, históricos ou míticos, que teriam desaparecido sem morrer e que retornariam quando seus povos deles precisassem. A crença nesses monarcas messiânicos e milenaristas tanto podia legitimar seus sucessores quanto servir de contestação ao governante do momento.
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Nação e Estado
Pelo menos até o século X, “nação” tinha conotação apenas étnica: natione vem de “nascimento”. Na Primeira e na Alta Idade Média, prevaleceu o princípio jurídico germânico da personalidade das leis, quer dizer, cada pessoa era regida pelos costumes de seu povo independentemente do lugar em que estivesse. O princípio jurídico romano da territorialidade das leis, ou seja, a submissão aos costumes locais, qualquer que fosse a origem da pessoa, reganharia força aos poucos, sobretudo a partir do século XII. Somente então “nação” passou a ter caráter também geográfico e político.
No Império Carolíngio alguns fatores permitiram o desenvolvimento de consciências étnicas: a pretensão a certo centralismo administrativo, a conquista de novos territórios, o progresso dos falares locais diante do recuo do latim. A fragmentação do império em 843 expressava e reforçava aquela situação, estimulando a formação dos nacionalismos nos séculos seguintes.
A evolução do Estado medieval não é menos problemática. Apesar de a palavra existir desde o latim clássico (no qual status significa “modo de ser”, “estado”), apenas a partir de meados do século XIII ela começou a ganhar o sentido atual de corpo político submetido a um governo e a leis comuns, e somente em fins do século XV essa acepção tornou-se usual. O Estado-nação progrediria na Baixa Idade Média, tanto no plano prático (exércitos nacionais, protecionismo econômico) quanto no simbólico (surgimento das bandeiras, do conceito de fronteira).
No século IX, restabeleceu-se uma relativa unidade com o Império de Carlos Magno, que absorveu, mas não eliminou outros reinos formados no período anterior. Nos séculos X-XIII, o Império tornou-se apenas uma ficção, uma idealização, pois na prática ocorria uma profunda fragmentação política substantivada nos feudos, porém limitada pelos laços de vassalagem, que permitiriam às monarquias recuperar aos poucos seus direitos. Nos séculos XIV-XVI, o processo de revigoramento das monarquias acelerou-se, estimulado pela crise global que fazia a sociedade depositar suas esperanças de recuperação no Estado.
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A fragmentação da Primeira Idade Média
A crise do século III já mostrara a fraqueza das instituições políticas romanas. As lutas pelo trono eram freqüentes; -, as intervenções militares também. Cada exército provincial pretendia dar o título imperial ao seu comandante para obter maiores vantagens: naquele período de “anarquia militar”.
As reformas políticas de Diocleciano e Constantino repuseram em mãos imperiais um grande poder, porém suas reformas sociais e econômicas indiretamente e em longo prazo anularam aquela recuperação. Os latifundiários não só se tornavam mais ricos como passavam aos poucos a ter atribuições estatais dentro de suas propriedades. A cada vez mais constante penetração de germânicos em território romano gerava uma insegurança que reforçava aquela tendência. O Estado ia perdendo as possibilidades de uma atuação efetiva. Ocorria um claro processo de desagregação política.
Os germanos não tinham nem Estado nem cidades, sendo a tribo e a família as células básicas de sua organização política. As relações sociais entre eles não se regiam pelo conceito de cidadania, mas de parentesco. Assim, ao se sedentarizarem, ocupando cada tribo uma parcela do Império Romano, eles vieram a substituir um Estado organizado e relativamente urbanizado. Não tendo instituições próprias para desempenhar tal tarefa, adotaram as que estavam à mão, e que bem ou mal tinham funcionado por longo tempo. O rei ostrogodo Teodorico (474-526) pensou numa espécie de confederação germânica sob o domínio de seu reino. A idéia de uma confederação germânica não era absurda, mas precoce, na época de Teodorico.
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A renovação imperial carolíngia
As condições para tanto estariam reunidas apenas no reino franco do século VIII, na figura de Carlos Magno. Em primeiro lugar, pelo fato de ele ter a anuência da Igreja para dar aquele passo. Em segundo lugar, as relações do Ocidente com Bizâncio estavam bastante abaladas naquele momento, de forma que não havia a preocupação dos três séculos anteriores em respeitar os direitos bizantinos.
O território estava dividido em centenas de condados, de extensão variável, cada um deles dirigido por um conde, nomeado pelo imperador. O conde representava o poder central em tudo, publicando as leis e zelando pela sua execução, estabelecendo impostos, dirigindo trabalhos públicos, distribuindo justiça, alistando e comandando os contingentes militares, recebendo os juramentos de fidelidade dirigidos ao imperador. Em troca recebia uma porcentagem das taxas de justiça e, sobretudo terras entreguem pelo soberano.
Essa prática revelou-se insuficiente para superar a fraqueza estrutural do Império Carolíngio, o que levou, em 843, à sua fragmentação por meio do Tratado de Verdun, assinado entre três netos de Carlos Magno. Nele aparecia o primeiro esboço do futuro mapa político europeu. O tratado estabeleceu dois grandes blocos territoriais, étnicos e lingüísticos (dos quais surgiriam às futuras França e Alemanha) e uma longa faixa pluralista, composta de uma zona de personalidade definida (Itália do norte), zonas multilingüistas que sofreriam o poder de atração daqueles primeiros blocos (futuras Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Suíça), zonas intermediárias que seriam objeto de longas disputas (Alsácia, Lorena, Trieste, Tirol).
O fato de o Império não ter unidade orgânica, assentando-se sobre dois princípios contraditórios: o universalismo das tradições romana e cristã e o particularismo tribal germânico. A diversidade étnica era insuficientemente soldada pela autoridade real, muito sujeita a flutuações conforme a personalidade do soberano. Um segundo fator foi à difusão da vassalagem, por meio da qual Carlos Magno pretendeu unir a si todos os súditos importantes, num vínculo que manteria o predomínio imperial. A relação vassálica implicava, porém, a entrega por parte do soberano de terras e privilégios políticos que na verdade o enfraqueciam. Naquela economia essencialmente agrária, ao ceder terras para os nobres o imperador precisava conquistar novas áreas, mas para tanto dependia do serviço militar daqueles mesmos elementos. Surgia um círculo vicioso difícil de ser rompido.
Em terceiro lugar, revelou-se problemática a fusão do poder temporal e do poder espiritual na figura do imperador. No seu papel militar, pela tradição germânica, ele deveria ser um chefe guerreiro e obtentor de pilhagens; no seu papel religioso, pela tradição cristã, ele deveria ser o mantenedor da paz e da justiça. Frágil equilíbrio.
O imperador fez com que a expansão cristã fosse realizada por intermédio de missões religiosas, e não mais de conquistas militares. O soberano ficou assim privado dos proventos da pilhagem, de forma que precisava remunerar os vassalos com suas próprias terras, esgotando a fortuna fundiária carolíngia, base inicial de seu poder.
Por fim, as novas invasões dos séculos IX-X contribuíram para mostrar a debilidade do sistema imperial. A rapidez dos vikings, que descendo da Escandinávia penetravam pelos rios com seus barcos leves e ágeis, não permitia a defesa por parte daquele exército difícil de ser convocado e pesado nas manobras militares. Ficava patente a impotência dos soberanos, e cada região organizava sua própria defesa, em torno da nobreza local. Era a região, portanto, que passava a definir seu próprio destino. A Europa cobria-se de castelos. O poder se fragmentava.
A partir de então, estavam presentes os personagens políticos que se manteriam em cena até o fim da Idade Média: o Império, a Igreja, as monarquias, o feudalismo e — um pouco mais tarde — as comunas.
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Os poderes universalistas
Por causa de problemas dinásticos, tal título deixou de ser utilizado de 924 a 962, quando se deu a chamada “segunda renovação do Império”, com Oto. Depois de ter consolidado seu poder no reino alemão, ele derrotou os magiares e eslavos, pacificando aquela região e ganhando um prestígio muito grande em toda a Cristandade*. Intervindo na política italiana, ele casou-se com a herdeira do trono daquele território e proclamou-se rei também ali. O papa, precisando de ajuda para superar problemas na Itália central, buscou seu apoio. Enfim, Oto I conseguiu reunir todas as condições para ser coroado imperador pelo pontífice. Renascia o Império Franco, que em 1157 passou a se chamar Santo Império e a partir de 1254, Santo Império Romano Germânico.
O Império resultava da reunião de três coroas, da Alemanha, da Itália e da Borgonha. E o monarca era fraco em todas. Na Alemanha, feudalizada tardiamente no século XII, a prática feudal não trabalhava a favor do Estado, como ocorria na França: o rei não podia manter os feudos confiscados, sendo obrigado a reenfeudá-los após um ano e um dia. Na Itália, o território era descontínuo, compreendendo o norte peninsular e algumas regiões meridionais, pois o centro era papal e o extremo sul bizantino. Na Borgonha, o poder da nobreza local já era bastante forte quando o reino se tornou em 1033 um Estado autônomo no seio do Império.
Sem poder efetivo nesses reinos, o soberano sempre buscou o título imperial na esperança de com ele reforçar sua atuação naqueles locais. Apenas o papa poderia coroar um imperador, mas não estava interessado na existência de um que fosse forte, pois ele próprio tinha pretensões universalistas, considerando-se o legítimo herdeiro do Império Romano. Daí os sérios conflitos entre Império e Igreja, que se arrastariam por longo tempo.
A Igreja, por sua vez, tornou-se claramente uma personalidade política desde que se corporificou com a Doação de Pepino. Isto é, ao receber do chefe franco em 754-756 os territórios que ele conquistara aos lombardos, nascia o Estado Pontifício. Contudo, tal fato trazia em si uma submissão implícita da Igreja ao poder monárquico, de quem recebia aquelas terras. Contra isso é que se forjou o documento conhecido por Doação de Constantino. Por este texto apócrifo, o imperador romano Constantino teria supostamente transferido para o papado, no século IV, o poder imperial sobre todo o Ocidente. A questão ficava, dessa forma, invertida: Pepino nada estaria doando à Igreja, mas apenas restituindo a ela uma parte do que lhe pertencia. A Igreja, depositária do título imperial, entregara-o ao rei franco por serviços prestados, podendo, portanto, retoma-lo e atribuí-lo a quem quisesse.
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Os poderes nacionalistas
Ao promover a unção de Pepino, em 751, a Igreja justificara o poder monárquico. Em parte isso ocorrera por circunstâncias, já que o papa necessitava do apoio franco contra os lombardos.
Apesar de aceitar a sacralidade monárquica, a Igreja velava para que tal poder não se tornasse excessivo, daí a farta literatura conhecida por “espelho dos príncipes”. Literatura de exortação aos monarcas, de quem se exigiam qualidades cristãs e a quem se estabeleciam limites de atuação.
Esse aspecto contratual vinha dos bárbaros germanos, para quem o rei, eleito, estava de certa forma subordinado ao direito costumeiro da tribo. Este determinava os poderes e atribuições do rei, e naturalmente não podia ser alterado por ele sem o consentimento da comunidade por intermédio da assembléia dos guerreiros. Com o mesmo espírito, no feudalismo o vassalo que não cumpria suas obrigações podia perder seu feudo, depois de julgado por seus pares no tribunal do senhor. Correspondentemente, o senhor que desrespeitava suas obrigações via o vassalo romper o contrato feudo-vassálico (diffidatio). Assim, o rei feudal como suserano mantinha relações contratuais apenas com seus vassalos diretos.
Por outro lado, a partir da própria fragmentação política feudal desenvolvia-se um elemento que acabaria por ter um papel reaglutinador. Os bárbaros tinham possuído certa solidariedade de tribo ou de povo, que, contudo não se associara a um território por causa de seu nomadismo. Com a penetração e fixação em terras do antigo Império Romano, aos poucos surgiram vínculos entre os habitantes, seus costumes, suas tradições e o território ocupado. O primeiro resultado disso é constatável séculos depois, quando em 813 o concilio de Tours recomendava ao clero traduzir os sermões em língua vulgar para que fossem mais bem compreendidos.
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Os poderes particularistas
O feudalismo, do ponto de vista político, representava uma pulverização do poder que respondia melhor às necessidades de uma sociedade saída do fracasso de uma tentativa unitária (Império Carolíngio) e pressionada por inimigos externos (vikings, magiares etc). Na verdade, as tendências centrífugas vinham desde o século IV, quando manifestaram e aceleraram o debilitamento do Império Romano. Naquele momento, com a busca da auto-suficiência por parte dos latifúndios, com a insegurança gerada pela penetração dos bárbaros e com as dificuldades nas comunicações, acentuou-se a ruralização da economia e da sociedade, levando os representantes do imperador a se verem limitados nas suas possibilidades de atuação. Os grandes proprietários rurais puderam, assim, usurpar atribuições do Estado.
A formação dos reinos germânicos em nada alterou a essência daquele processo. Naquela economia fundamentalmente agrária, os monarcas remuneravam seus servidores e guerreiros com terras, às quais se concediam muitas vezes imunidades. O detentor da terra desempenhava ali o papel de Estado, taxando, julgando, convocando.
A concessão e recepção de feudos e sua contrapartida (o serviço militar) representavam uma forma de divisão da riqueza (terra e trabalhadores) sempre dentro da mesma elite. O poder político estava fracionado para que pudesse ser mantido.
O surgimento das comunas representou um papel interessante e importante. De um lado, aquele processo negava os princípios feudo-clericais. O tipo mais difundido era a comuna citadina, a comunidade burguesa que se organizava para defender seus interesses comerciais diante dos abusos feudais, como confiscos ou taxações excessivas. No começo do século XI, ela pretendia apenas escapar à arbitrariedade senhorial. Cerca de 100 anos depois, ela passou a buscar autonomia, que se comprava ou arrancava à força, dependendo de cada caso.
Nascia então a verdadeira comuna, ou cidade-estado. Seu modelo acabado estava na Itália, região mais urbanizada do Ocidente, onde as longas lutas entre Império e Igreja tinham criado um vácuo de poder preenchido pelas associações burguesas. As comunas representaram uma novidade política não apenas na sua relação com os poderes tradicionais, mas também na sua organização interna. No primeiro momento seu regime político foi o consulado, com um grupo de funcionários (cônsules) eleitos defendo poderes executivos e judiciais. Para controlá-lo, havia uma assembléia inicialmente formada por todos os cidadãos e depois por certo número deles escolhido por eleição ou sorteio. Num segundo momento, diante das crescentes disputas internas da camada dirigente, passou-se a entregar o poder a uma só pessoa, de fora da cidade e, portanto neutra nos seus conflitos, o podestà (“regedor”).
O grau de autonomia conseguido pelas comunas foi muito variável conforme o tempo, o local e o tipo de associação. E importante lembrar que nem todas as comunas eram urbanas. As rurais, quase sempre muito modestas, nasciam da associação de aldeias contra o seu senhor. O espírito era o mesmo das comunas urbanas, mudavam os objetivos (acesso a áreas fechadas pelo senhor, reação ao desrespeito por costumes locais etc.) e as condições de alcançá-los (mais pobre que a cidade, o campo dificilmente podia comprar sua liberdade).
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O jogo político medieval
Os poderes universalistas (Igreja e Império) estavam em choque constante, porque pela própria natureza do que reivindicavam — a herança do Império Romano — somente um deles poderia ter sucesso. Assim, ambos fracassaram, permitindo a emergência de poderes particularistas (feudos e comunas) e nacionalistas (monarquias). Mais do que isso, quando ficou patente em fins da Idade Média, que o futuro pertencia a estas últimas, duas nacionalidade já tinham perdido sua oportunidade histórica de organizar Estados centralizados. A luta entre os universalistas debilitara as bases territoriais e nacionais da Itália (centro nevrálgico da Igreja) e da Alemanha (base do Sacro Império).
Dessa forma, por muito tempo elas permaneceram apenas realidades geográficas, não políticas. Perdidas as chances de obter colônias no Novo Mundo dos séculos XVI-XVII, atrasadas na industrialização dos séculos XVIII-XIX, secundarizadas na partilha da África e da Ásia do século XIX, aquelas nacionalidades sentiam cada vez mais a necessidade de se corporificar politicamente.
Apesar das transformações políticas dos séculos XI-XIII, na Baixa Idade Média os vínculos feudais continuavam a tencionar as relações entre vários Estados: o rei da Inglaterra era vassalo francês, o reino português surgira de uma secessão de Castela, a Escócia estava ligada à Inglaterra, e Flandres à França. Todas essas questões pendentes, ou mal resolvidas, vieram à tona com o grande conflito nacionalista da Idade Média, a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Mas esta também envolveu questões feudais internas, pois cada vez mais se restringia o papel social da nobreza, que era cumprido através de guerras locais, proibidas pelas monarquias, daí a necessidade de guerras mais amplas, entre os Estados.
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Capítulo IV - As estruturas eclesiásticas
A linha tendencial da Igreja na Idade Média revela-se com clareza. Num primeiro momento, a organização da hierarquia eclesiástica visava à consolidação da recente vitória do cristianismo. A seguir, a aproximação com os poderes políticos garantiu à Igreja maiores possibilidades de atuação. Em uma terceira fase, o corpo eclesiástico separou-se completamente da sociedade laica e procurou dirigi-la, buscando desde fins do século XI erigir uma teocracia que esteve em via de se concretizar em princípios do século XIII.
Contudo, por fim, as transformações que a Cristandade conhecera ao longo desse tempo inviabilizaram o projeto papal e preparou sua maior crise, a Reforma Protestante do século XVI.
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A formação da hierarquia eclesiástica na Primeira Idade Média
Nos seus primeiros tempos, a Igreja parecia envolvida numa contradição, que, no entanto se revelaria a base de seu poder na Idade Média. Ao negar diversos aspectos da civilização romana, ela criava condições de aproximação com os germanos. Ao preservar vários outros elementos da romanidade, consolidava seu papel no seio da massa populacional do Império.
Nascida nos quadros do Império Romano, a Igreja ia aos poucos preenchendo os vazios deixados por ele até, em fins do século IV, identificar-se com o Estado, quando o cristianismo foi reconhecido como religião oficial. A Igreja passava a ser a herdeira natural do Império Romano.
Para tanto, ela precisava ter sua própria hierarquia, realizando e supervisionando os ofícios religiosos, orientando quanto às questões de dogma, executando obras sociais, combatendo o paganismo. A concentração de todas essas atividades nas mãos de apenas alguns cristãos era aceita com naturalidade pelo conjunto dos fiéis, já que tal poder lhes fora atribuído pela própria Divindade: segundo o texto bíblico.
Apenas no século IV determinou-se que somente homens livres poderiam ingressar no clero, e proibiu-se a passagem direta do laicato para o episcopado, tornando-se necessário exercer antes uma função inferior. O sustento do clero advinha das esmolas dadas pelos fiéis, de acordo com o princípio de “quem serve ao altar vive do altar”. O celibato não era obrigatório, apenas recomendado, tendo surgido à primeira legislação a respeito na Espanha, onde o sínodo de Elvira em 306 proibiu o casamento aos clérigos sob pena de destituição.
Para a formação e organização da hierarquia eclesiástica acabou contribuindo bastante, paradoxalmente, um elemento que punha em risco a própria existência da Igreja: as heresias. Estas eram produto do sincretismo que fazia a força, mas também a fraqueza do cristianismo. Ao reunir e harmonizar componentes de várias crenças da época, a religião cristã tornava-se mais facilmente assimilável, porém passível de interpretações discordantes do pensamento oficial do clero cristão. Do ponto de vista deste, heresia era, portanto, um desvio dogmático que colocava em perigo a unidade de fé.
Qualquer idéia que parecesse herética era, então, submetida à apreciação do bispo local. Este geralmente colocava a questão perante seus pares nas assembléias episcopais, ou sínodos, que se reuniam desde meados do século II para tratar de tudo que interessasse à Igreja local. Mas as questões de doutrina eram debatidas, sobretudo nos concílios ecumênicos, que congregavam bispos de todas as regiões, expressando a universalidade da Igreja.
Paralelamente a esse clero voltado para atividades em sociedade — ministrar sacramentos, orientar espiritualmente, ajudar os necessitados — e por isso chamado de clero secular, surgia um de características diversas. Era constituído por indivíduos que buscavam servir a Deus vivendo em solidão, ascese e contemplação: os monges, do grego monakbos, “solitário”.
A tradicional trilogia monástica — castidade, pobreza e obediência — estava presente de forma concreta e equilibrada no cotidiano dos beneditinos. O abade eleito pelos monges recebe deles total obediência, que representa ao mesmo tempo uma manifestação de pobreza, pois não se pode dispor sequer da própria vontade. A pobreza, por sua vez, não é entendida como falta ou miséria, mas posse do estritamente necessário, daí o monge não poder ter nada de seu, apesar de o mosteiro possuir propriedades recebidas em doação. A castidade, sendo negação da posse do próprio corpo, também é uma forma de pobreza. Sendo negação do usufruto do próprio corpo, é uma forma de obediência. A obediência, sendo uma renúncia, é ainda uma forma de castidade.
Desde fins do século III ocorria forte expansão do cristianismo nas cidades, onde a crise do Império Romano era mais sentida e, portanto, as condições para a cristianização mais favoráveis. O campo, sempre mais conservador, mantinha-se preso às suas antigas crenças, mesmo pré-romanas, daí paganus (“camponês”) ter sido identificado ao não-cristão. Com a decadência urbana e o conseqüente êxodo, o cristianismo penetrou no campo.
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A submissão ao Estado na Alta Idade Média
Estreitavam-se, portanto, as relações Estado-Igreja, com predomínio do primeiro na época de Carlos Magno. Os clérigos participavam então do conselho real, os bispos tinham poderes civis, os cânones ganhavam força de lei. O monarca presidia os sínodos, punia os bispos, regulamentava com eles a disciplina eclesiástica e a liturgia, intervinha mesmo em questões doutrinais. Os bispos eram nomeados pelo soberano, contrariamente à tradição canônica, mas o fato não era considerado uma usurpação, e sim um serviço prestado pelo monarca à Igreja, quase um dever do cargo. Suas conquistas territoriais abriram caminho para a cristianização dos saxões, frísios, vendes, avaros, morávios e boêmios. Em virtude da crescente extensão do Império, ele instituiu muitas paróquias, criou novas dioceses e arquidioceses.
Graças a isso, a Igreja enriqueceu ainda mais. No começo do século V ela tinha sido a segunda maior proprietária imobiliária do Ocidente, depois do Estado Romano, e tornou-se a maior desde fins daquele século, com o desaparecimento do Império. De fato, a chegada dos bárbaros não a prejudicou, pelo contrário, muitos indivíduos, diante da insegurança geral de então, entregaram suas terras ao patrocinium da Igreja.
Na terceira fase das relações Carolíngios-papado, completou-se a reforma monástica sob o governo de Luís, o Pio, que encarregou Bento de Aniane de realizá-la. Este, em 817, procurou inicialmente combater o relaxamento que tomara conta da vida monástica, impondo certa uniformização na aplicação da regra beneditina. Desde então, os monges entregaram-se especialmente ao culto. O clero secular retomava a direção do movimento de cristianização e o episcopado aumentava seu poder político.
A partir de inícios do século IX, inspirada no Direito Canônico e em Santo Agostinho, ganhou terreno à teoria do agostinianismo político, que afirmava a superioridade espiritual sobre a temporal, dos bispos sobre os reis. O movimento cultural chamado de Renascimento Carolíngio elevara o nível dos bispos. Tal teoria contribuiu para aumentar a autonomia da nobreza, o que teve reflexos negativos sobre a Igreja, com a generalização do sistema de “igreja própria”, já existente no século VII e que se estenderia até o século XII. Por ele, quando um latifundiário levantava uma igreja ou mosteiro em suas terras, mantinha esse bem como plena propriedade, podendo vendê-lo, doá-lo ou transmiti-lo em herança. Podia apropriar-se das esmolas e dízimos recebidos pela igreja ou mosteiro. Podia, sobretudo, nomear quem quisesse como sacerdote, função que desde o século VIII era atribuída como beneficiam ou feudo.
A tentativa de teocracia papal na Idade Média Central
Numa reação contra aquele estado de coisas, na Idade Média Central a Igreja teve como objetivo alcançar a autonomia e, sobretudo — concretizando o agostinianismo político e impedindo que prosseguisse a sujeição aos leigos — passar a dirigir a sociedade. O primeiro passo em direção àquela dupla meta tinha sido dado em princípios do século X, com a fundação do mosteiro de Cluny, na Borgonha. Adotando a regra beneditina, mas interpretando-a de forma própria, Cluny valorizava os trabalhos litúrgicos, que absorviam a quase totalidade do tempo dos monges. O trabalho manual foi abandonado aos camponeses de seus senhorios, o trabalho intelectual relegado a segundo plano. Vivendo sob rígida disciplina, cm ascetismo, silêncio e isolamento, os monges cluniacenses recuperaram o prestígio da vida religiosa.
Buscando restabelecer a paz social (não a igualdade, concepção estranha à época) e tornar-se sua guardiã, a Igreja promoveu em fins do século X o movimento conhecido por Paz de Deus. Ameaçados de excomunhão e de suas decorrentes punições sobrenaturais, os guerreiros foram pressionados a jurar sobre relíquias que respeitariam as igrejas, os membros do clero e os bens dos humildes.
Tal movimento estendeu-se até por volta de 1040, sem conseguir pacificar completamente a sociedade cristã ocidental. O clima de violência expressava as necessidades da aristocracia laica, mais numerosa devido ao crescimento demográfico, e a conseqüente disputa entre ela e a aristocracia eclesiástica pela posse das riquezas geradas pelos camponeses. Diante disso, seguindo o mesmo espírito da Paz de Deus, mas buscando criar novos mecanismos de controle sobre o comportamento da elite laica, a Igreja estabeleceu em princípios do século XI a Trégua de Deus.
Como a idéia básica da Paz e da Trégua de Deus era a preservação da ordem religiosa, social e política desejada por Deus, entende-se que a partir de fins do século XI ela tenha derivado para a idéia de Guerra Santa, que procurava impor aquela ordem dentro (Cruzada contra hereges) e fora (Cruzada contra muçulmanos) da Cristandade.
As Cruzadas deveriam funcionar não só como elemento de pacificação interna da Europa católica, levando para fora dela à irrequieta nobreza feudal, mas especialmente como um fenômeno aglutinador da Cristandade sob o comando da Igreja, acenava-se para seus participantes com a remissão dos pecados, a proteção eclesiástica sobre suas famílias e bens, a suspensão do pagamento de juros. Lutando sob a égide da Igreja, os cruzados deveriam agir como guerreiros imbuídos de seus ideais.
No século XIII estavam reunidas todas as condições para o exercício do poder papal sobre a comunidade cristã. Em relação aos clérigos, o papado legisla e julga, tributa, cria ou fiscaliza universidades, institui dioceses, nomeia para todas as funções, reconhece novas ordens religiosas. Em relação aos leigos, julga em vários assuntos, cobra o dízimo, determina a vida sexual (casamento, abstinências), regulamenta a atividade profissional (trabalhos lícitos e ilícitos), estabelece o comportamento social (roupas, palavras, atitudes), estipula os valores culturais.
Um claro sinal do alargamento das atribuições papais estava numa importante novidade, à exclusividade de canonização dos santos. Desde princípios do cristianismo, os mártires vitimados pelas perseguições romanas tornaram-se objeto de culto, sendo vistos como cristãos ideais, que tinham sacrificado suas vidas por fidelidade ao Deus único.
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A crise da Baixa Idade Média
A grande questão da Igreja na Baixa Idade Média foi, porém, um prolongamento da antiga disputa entre poder espiritual e poder temporal. Em fins do século XIII, o papa Bonifácio VIII, defensor da monarquia universal pontifícia, proibiu que os eclesiásticos fizessem doações sem autorização da Santa Sé e que os poderes laicos cobrassem taxas sobre bens da Igreja. Na França, em pleno processo de afirmação da monarquia nacional, o rei Filipe IV, em resposta, proibiu a saída de metais preciosos do país e baniu os coletores de impostos papais. Pouco depois, o monarca francês prendeu um bispo, levantando fortes protestos do papa. Filipe acusou Bonifácio de ter sido eleito papa ilegitimamente e em 1303 conseguiu prendê-lo na cidade de Anagni. Apesar de solto logo depois, o papa estava claramente desmoralizado, e o sonho da teocracia pontifícia falido.
A crise do pontificado e o desenvolvimento do nacionalismo, fenômenos, aliás, interligados, desenvolviam o sentimento de autonomia eclesiástica em diversos locais. Mesmo depois de reunificada pelo Concilio de Constança, havendo um só papa residindo na tradicional sede de Roma, a Igreja continuava abalada. Grandes problemas permaneciam, opondo concilio e papa, Igreja e monarquias, Estado Pontifício e Estados italianos, cultura cristã tradicional e nova cultura humanista. Assim, em 1517, exatamente 100 anos depois da volta do papado a Roma, começava o Protestantismo.
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Capítulo V - As estruturas sociais
A História Social total deve ser o objetivo último dos estudos históricos, não uma etapa da reconstituição do passado, um campo específico do saber.
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A redefinição da Primeira Idade Média
Os primeiros séculos medievais conheceram uma cristalização da hierarquia social, fenômeno que na verdade já se desenvolvia anteriormente, mas que se completou apenas no século IV. De fato, a crise geral que sacudiu a civilização romana no século III levara a uma limitação dos espaços de atuação individual e ao correspondente alargamento das funções do Estado.
As tentativas reformistas criaram uma enorme distância social entre as várias camadas. No topo da pirâmide estava a aristocracia senatorial, cinco vezes mais rica que a do século I. As camadas médias, rurais e urbanas, encolhiam. As primeiras, devido à generalização do patrocinium, laço de dependência que se criava entre um camponês livre e um grande proprietário. As camadas médias urbanas viam-se esmagadas por dois fatores. O primeiro deles — o processo de ruralização da sociedade romana — resultava de sua contradição básica: sendo escravista e imperialista, ela só poderia manter-se graças a novas conquistas que renovassem o estoque de mão-de-obra e trouxessem mais riquezas por meio de saques e tributos. Contudo, o escravismo e o imperialismo marginalizavam grande parte da população, que precisava ser sustentada pelo Estado.
O segundo fator que enfraquecia as camadas médias urbanas era um pesado conjunto de impostos que o Estado cobrava para tentar manter a própria vida citadina. Obrigados a contribuir na promoção de jogos circenses, na distribuição de trigo à população marginalizada e na realização de obras públicas, os curiales (espécie de aristocratas urbanos) procuravam fugir aos seus encargos. O Estado precisou proibir sua migração para o campo e mesmo sua entrada para a camada senatorial ou para o clero.
Na base da sociedade, os trabalhadores livres urbanos tiveram decretado a vitaliciedade e hereditariedade de suas funções, sendo reunidos em collegiae (corporações) de acordo com a especialização, para facilitar o controle estatal. Os trabalhadores livres rurais tendiam a se tornar dependentes dos latifundiários por meio do patrocinium e, sobretudo, do colonato. A criação dessa instituição era uma tentativa de responder a problemas colocados pela crise: atendia ao interesse dos proprietários em ter mais mão-de-obra, ao interesse do Estado em garantir suas rendas fiscais, ao interesse dos humildes e despossuídos por segurança e estabilidade.
Já no século III, precisando de soldados diante do retrocesso populacional, o Estado romano contratara muitos germanos, às vezes tribos inteiras. O pagamento por esse serviço militar era a entrega de lotes fronteiriços (hospitalitas), prática que se estendeu a todo o território romano com as invasões do século V.
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A aristocratização da Alta Idade Média
Como a terra era quase a única forma de riqueza da época, não existia uma camada urbana de comerciantes e artesãos que exercessem por conta própria e regularmente seu ofício, mas apenas uns poucos indivíduos dedicando-se àquelas atividades. A sociedade estava polarizada entre os proprietários fundiários, de um lado, e os camponeses despossuídos, de outro.
Dentre os primeiros, havia pequenos e médios proprietários, camponeses livres (pagenses) que trabalhavam sua terra com a ajuda de familiares e uns poucos escravos. Como todo homem livre, eles deviam (além do juramento de fidelidade ao soberano) serviço militar e judicial, encargos muito pesados para seus recursos.
A seguir vinham os colonos, que, apesar de serem juridicamente livres, cada vez mais sentiam a fraqueza da autoridade pública que deixava amplos poderes nas mãos dos grandes detentores de terras. Sua situação oscilava, conforme os momentos e os locais, entre a dos pagenses e a dos escravos. Por fim, havia uma mão-de-obra escrava.
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A feudo-clericalização dos séculos XI-XII
O que se deve chamar de feudalismo ou termo correlato (modo de produção feudal, sociedade feudal, sistema feudal etc.) é o conjunto da formação social dominante no Ocidente da Idade Média Central, com suas facetas política, econômica, ideológica, institucional, social, cultural, religiosa. Em suma, uma totalidade histórica, da qual o feudo foi apenas um elemento. No entanto — e procurando não perder essa globalidade de vista —, como examinamos cada uma daquelas facetas nos capítulos correspondentes, vamos aqui nos prender apenas à análise das relações sociais do feudalismo.
Ou melhor, do feudo-clericalismo. Realmente, este rótulo parece-nos mais conveniente, na medida em que explicita o papel central da Igreja naquela sociedade. Fato fundamental e geralmente pouco considerado.
Foi por intermédio dela que se deu a conexão entre os vários elementos (já anteriormente presentes) que comporiam aquela formação social. Foi ela a maior detentora de terras naquela sociedade essencialmente agrária, destacando-se, portanto, no jogo de concessão e recepção de feudos. Foi ela a controlar as manifestações mais íntimas da vida dos indivíduos: a consciência através da confissão; a vida sexual através do casamento; o tempo através do calendário litúrgico; o conhecimento através do controle sobre as artes, as festas, o pensamento; a própria vida e a própria morte através dos sacramentos (só se nascia verdadeiramente com o batismo, só se tinha o descanso eterno no solo sagrado do cemitério). Foi ela a legitimadora das relações horizontais sacralizando o contrato feudovassálico, e das relações verticais justificando a dependência servil.
Aliás, como produtora de ideologia, traçava a imagem que a sociedade deveria ter de si mesma.
Tínhamos, portanto, naquela sociedade de ordens, de um lado, duas camadas identificadas quanto às origens e aos interesses, detentoras de terra e, assim, de poder econômico, político e judicial (clérigos e guerreiros), de outro lado, uma massa formada principalmente por despossuídos e dependentes, os trabalhadores. Assim, davam-se três formas de relações sociais, uma horizontal na camada dominante, outra horizontal na camada dominada e outra vertical entre os dois grandes grupos.
A primeira forma ocorria pelo contrato feudo-vassálico. A segunda, por acordos para empreendimentos comuns, diante das dificuldades de um trabalhador realizar sozinho certas tarefas, como arar um campo ou arrotear uma área. A terceira, fundamental, estava na base da primeira (forma de a aristocracia dividir as terras e o produto do trabalho camponês) e da segunda (forma de os laboratores poderem concretizar seu papel social, de produtores).
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O feudo-aburguesamento dos séculos XII-XIII
O crescimento demográfico e econômico, as cidades da Idade Média Central revigorou, pois para aqueles que fugiam dos laços compulsórios da servidão a vida urbana oferecia muitos atrativos.
Mais do que isso, tornava-se burguês (habitante do burgo, ou seja, da cidade), o que significava uma situação jurídica própria, bem definida, com obrigações limitadas e direitos de participação política, administrativa e econômica na vida da cidade. E verdade que desde fins do século XII os imigrantes não encontravam nas cidades as oportunidades com que sonhavam, formando um proletariado que freqüentemente acabou por se chocar com a burguesia dona das lojas e oficinas. Mas, utopicamente, os centros urbanos continuaram a seduzir os homens do campo.
A grande síntese disso tudo talvez tenha sido o desenvolvimento do individualismo, com a conseqüente passagem da família patriarcal para a família conjugal e a correspondente valorização da mulher e da criança. Foi nas cidades que despontaram novos valores sociais, opostos aos coletivistas (interdependência das ordens) e machistas (predominância do clero celibatário e dos guerreiros). Na realidade, esse fenômeno social era reflexo c origem de um conjunto mais amplo de transformações, de uma revalorização do ser humano.
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A instabilidade dos séculos XIV-XVI
Na Baixa Idade Média, a passagem da sociedade de ordens para uma sociedade estamental, produto da própria dinâmica feudal, acelerou-se naquele contexto de crise generalizada. Com a quebra da rígida estratificação anterior, baseada num ordenamento divino da sociedade, o organismo social tornou-se determinável pelos próprios indivíduos.
A aristocracia, naturalmente, foi a mais atingida pelas transformações da época. As dificuldades da economia senhorial arruinavam muitas famílias nobres, que perdiam suas terras e se deslocavam para as cidades ou para as cortes principescas ou monárquicas. Dessa forma, a nobreza sofria certa descaracterização ou ao menos perdia alguns dos traços que tinham feito parte de seu poder e prestígio até então.
A burguesia, cujo aparecimento na Idade Média Central tinha expressado as transformações sociais então em gestação, consolidou-se com a crise aristocrática. Foi assim que se deu a penetração burguesa no campo, com a compra de terras, que ocorria pelo menos desde o século XIII acelerando-se na Baixa Idade Média.
Quanto à mão-de-obra urbana, a situação era mais homogênea e mais difícil. A crise não criou uma elite trabalhadora, como fizera no campo, apenas reforçou o poder da alta burguesia. A relativa alta de preços industriais, enquanto os preços agrícolas caíam, atraía muitos camponeses para as cidades. Dessa forma, aumentava a oferta de mão-de-obra urbana, o que permitia ao patriciado burguês pressionar os salários para baixo, rompendo a tendência altista gerada pela peste negra.
As revoltas urbanas, por sua vez, eram pelo controle do Estado, em processo de afirmação, fosse ele comunal, senhorial ou nacional.
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Capítulo VI - As estruturas culturais
Cultura era entendida como uma criação intelectual realizada por “grandes homens”, mais ou menos desvinculados do contexto histórico. E também como uma criação letrada, pois mesmo as artes, essencialmente visuais, pressuporiam certo conhecimento para ser “compreendidas”. No entanto, as transformações do último meio século nos veículos de divulgação cultural (rádio, televisão, cinema, jornais, revistas), e mais recentemente o diálogo da História com a Antropologia, romperam aquela visão estreita.
Para tanto, entenderemos cultura como tudo aquilo que o homem encontra fora da natureza ao nascer. Tudo que foi criado, consciente e inconscientemente, para se relacionar com outros homens (idiomas, instituições, normas), com o meio físico (vestes, moradias, ferramentas), com o mundo extra-humano (orações, rituais, símbolos). Esse relacionamento tem caráter variado, podendo ser de expressão de sentimentos (literatura, arte), de domínio social (ideologias), de controle sobre a natureza (técnicas), de busca de compreensão do universo (filosofia, teologia).
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As áreas culturais
De um lado, a cultura erudita, de elite, cultura letrada que pelo menos até o século XIII foi eclesiástica do ponto de vista social e latina do ponto de vista lingüístico. Conscientemente elaborada (mas sem deixar, é claro, de ser tributária da mentalidade), era formalmente transmitida (escolas monásticas, escolas catedralícias, universidades). Por isso, tendia a ser conservadora, a se fundamentar em autoridades.
De outro lado, estava a cultura que já foi chamada de popular, laica ou folclórica, e que preferimos denominar “vulgar”, pois para os medievais esta palavra rotulava sem ambigüidade tudo que não fosse clerical. A cultura vulgar era oral, transmitida informalmente (nas casas, ruas, praças, tavernas etc.) por meio de idiomas e dialetos vernáculos. Espontaneamente elaborada, ela expressava a mentalidade de forma mais direta, com menos intermediações, com menos regras preestabelecidas. Ideologicamente, ela se inclinava a recusar os valores e práticas oficiais. Ainda que muito presa às suas próprias tradições — que a Igreja tendia a tachar de superstições —, a cultura vulgar não estava fechada a outras influências.
A cultura erudita procurou apossar-se dos relatos míticos, promovendo e legitimando o registro escrito de alguns deles e controlando sua interpretação.
A cultura vulgar, por sua vez, pressionou ao longo da Idade Média para que certos ritos fossem criados ou modificados.
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A bipolarização da Primeira Idade Média
Na Primeira Idade Média, as dificuldades da época estabeleceram caracteres culturais que se manteriam, com variações de intensidade, nos séculos seguintes. Primeiro, alargamento do fosso entre a elite culta e a massa inculta. Segundo, este corte cultural não coincidia com a estratificação social: a linha de separação era entre clérigos e leigos, realidade sociocultural que ficou registrada no francês moderno clerc (“letrado”), no inglês clerk (“escrevente”) e no português “leigo” (ignorante). Terceiro, a cultura clerical era uma sistematização e simplificação da herança greco-romana, adaptada à situação de uma época convulsionada politicamente, enrijecida socialmente, empobrecida economicamente e, síntese disso tudo, limitada pelo seu “absolutismo religioso”. Quarto, a cultura vulgar regredira com as dificuldades materiais, a insegurança espiritual e a fusão com elementos bárbaros, daí a ressurgência de técnicas, crenças e mentalidades tradicionais, pré-romanas.
Em virtude desse clima cultural e da finalidade que se atribuía ao conhecimento, às ciências viam-se limitadas no seu desenvolvimento. Predominava a concepção de que a meta do homem era o Reino de Deus e de que a Revelação estava contida nas Sagradas Escrituras.
A Literatura também foi influenciada por aquela tendência a preservar e cristianizar obras antigas, mais do que a criar. Não havia preocupação com originalidade, apenas com a conservação da literatura clássica por meio de cópias realizadas nos scriptoria monásticos.
A arte ocidental dos séculos IV-VIII realizou uma síntese de elementos de origens diversas. Da arte romana clássica conservou-se algo das técnicas e das características arquitetônicas. Da arte oriental, com a qual se manteve contato mesmo após as invasões germânicas, através de mercadores e missionários, veio certa estilização e hieratismo das formas. Da
arte germânica, típica de povos nômades, aproveitou-se o caráter não figurativo e o geometrismo estilizado. Da arte céltica, através das iluminuras dos monges irlandeses, absorveu-se o uso de linhas abstratas, apenas ornamentais. Da arte cristã primitiva veio o essencial, isto é, a temática e o simbolismo. No todo, elementos que se completavam mais do que se negavam, tendo cada um deles peso variável conforme o gênero artístico (arquitetura, escultura, pintura, miniatura, mosaico etc.) e as condições locais (composição étnica, meio físico, época).
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A clericalização da Alta Idade Média
Entre as últimas décadas do século VIII e as primeiras do século IX, com a estreita relação entre Estado e Igreja que levou à constituição do Império Carolíngio, as manifestações da cultura vulgar foram de forma geral abafadas. A cultura clerical, mais do que nunca tornada oficial, foi produzida no âmbito do movimento que se convencionou chamar de Renascimento Carolíngio. Segundo o próprio Carlos Magno, seu objetivo era fazer com que “a sabedoria necessária à compreensão das Sagradas Escrituras não seja muito inferior à que deveria ser”. Melhorar o nível dos clérigos significava para a Igreja oferecer serviços religiosos mais elevados e para o Império servidores administrativos mais eficientes. Daí o alcance daquele movimento ter-se limitado a algumas centenas de pessoas, concentradas nas escolas monásticas e, novidade, numa escola criada no próprio palácio imperial. Diante de seus objetivos, a tônica não era criar, mas redescobrir, adaptar, copiar, por isso já se disse que “a Renascença Carolíngia, ao invés de semear, entesoura”.
Para acelerar essa atividade copista e minimizar os erros de transcrição, buscava-se já havia algum tempo desenvolver uma caligrafia menos desenhada, que apresentasse maior regularidade. Uma caligrafia mais prática, cursiva, que implicasse menor número de movimentos com a mão.
O reequilíbrio da Idade Média Central
Com as acentuadas transformações sociais, políticas e econômicas ocorridas a partir do século XI, foi quebrada a clara predominância desfrutada pela cultura clerical na fase anterior. A cultura vulgar ressurgia com força. Em conseqüência, a cultura intermediária passou a marcar presença em quase todos os campos. A cultura erudita viu, assim, reduzidas suas áreas de exclusividade, mas com isso pôde concentrar forças e em certos setores atingir seu apogeu. O movimento conhecido por Renascimento do século XII ilustra bem esse fenômeno.
A Reação Folclórica
Com efeito, assistiu-se no século XI a um reequilíbrio de forças entre os dois pólos culturais. Assim como na Alta Idade Média ocorrera a clericalização de muitos elementos folclóricos, agora se dava a folclorização de elementos cristãos. O cristianismo, ao dessacralizar a natureza (que não se identificava mais com as divindades pagãs), tinha marcado nova etapa no pensamento racionalista, e nesse sentido a oposição folclórica representou a resistência de outro sistema mental, de outra lógica, a do “pensamento selvagem”.
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A cultura intermediária e a arte
Mas a emissão e a recepção da mensagem iconográfica não era, obviamente, sempre a mesma. As iluminuras de textos bíblicos e teológicos, consumidas apenas por clérigos, recebiam tratamento mais erudito. As esculturas, as pinturas murais, os mosaicos, os vitrais, colocados em igrejas, mosteiros e catedrais em locais visíveis a todos, transmitiam mensagens ao alcance desse público mais amplo.
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A cultura intermediária e a literatura
Na literatura latina, ao lado de uma produção nitidamente clerical (crônicas, poesias de cunho clássico), havia uma de espírito popular (hagiografia) e outra erudita mas antieclesiástica (goliárdica). Na literatura vernácula, havia gêneros com forte coloração clerical (canção de gesta, ciclo do Graal) e outros acentuadamente laicos (lais,fabliaux). Em termos culturais, portanto, e não apenas lingüísticos, boa parte da literatura da Idade Média Central estava na zona da cultura intermediária.
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A cultura clerical e o ensino
Um setor cultural que a Igreja monopolizava desde princípios da Idade Média continuou nos séculos XI-XIII sob seu controle, apresentando, todavia, características novas, que tendiam a escapar de sua alçada — o ensino. De qualquer forma, mesmo com certa laicização o ensino não deixava de estar na área da cultura clerical, entendida cada vez mais, como já dissemos, como cultura de letrados, e não apenas cultura de eclesiásticos.
Nesse processo, surgiram no século XI as escolas urbanas, que se transformariam em universidades no século XIII. Ambas eram produto do crescimento demográfico-econômico-urbano, que tornava a sociedade mais complexa e mais necessitada de atividades intelectuais. De fato, eram necessários sacerdotes em maior número e mais bem preparados para guiar fiéis mais numerosos e com novos problemas; juristas para uma maior quantidade de tribunais e às voltas com questões novas c mais difíceis; burocratas para os reis e grandes senhores feudais, cujos rendimentos, despesas e interesses se ampliavam; mercadores para atender à crescente procura de bens e que precisavam elaborar contratos, escrever cartas, controlar lucros e estoques.
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A cultura clerical e a teologia/filosofia
O curso universitário que gozava de maior prestígio, apesar de toda a laicização da sociedade e da cultura que ocorria no século XIII, era sem dúvida o de Teologia, especialmente o de Paris. O conhecimento nessa área mantinha-se virtualmente o mesmo dos séculos anteriores, com o termo então utilizado (sacra doctrina) indicando que ela abarcava apenas o que tinha sido revelado direta ou indiretamente por Deus: Bíblia, decisões de concílios, comentários há muito aceitos pela Igreja. Na expressão de Santo
Anselmo, era “a fé em busca da inteligência”.
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O redirecionamento da Baixa Idade Média
O frágil equilíbrio entre cultura clerical e cultura vulgar rompeu-se com a crise do século XIV. A razão disso está ligada ao fato de que na Baixa Idade Média “existia uma falta geral de equilíbrio no temperamento religioso, o que tornava tanto as massas como os indivíduos suscetíveis de violentas contradições e de mudanças súbitas” (62: 163). As manifestações culturais oscilavam então do mais estrito racionalismo ao mais fervoroso misticismo. A cultura clerical não tinha mais a coerência da Alta Idade Média e a cultura vulgar não possuía o mesmo vigor que na Idade Média Central. Buscava-se uma nova composição, da qual sairia à cultura renascentista dos séculos XV-XVI.
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Capítulo VII - As estruturas cotidianas
O caráter factual e descritivo que marcou de forma geral a historiografia até princípios deste século levava à desconsideração dos “pequenos fatos”, dos eventos do dia-a-dia, repetitivos, sem uma influência clara e direta sobre os “grandes fatos” (batalhas, sagração de reis, criação de instituições, surgimento de importantes obras literárias e artísticas etc). No entanto, a crescente compreensão de que o tecido da História é formado por fios dos mais variados tamanhos e cores permitiu o aparecimento de estudos sobre a vida cotidiana e privada das populações do passado. Ou seja, dos aspectos mais duradouros e presentes no desenrolar da História.
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O tempo
A Idade Média não se interessava por uma clara e uniforme quantificação do tempo. Como na Antigüidade, o dia estava dividido em 12 horas e a noite também, independentemente da época do ano. Os intervalos muito pequenos (segundos) eram simplesmente ignorados, os pequenos (minutos) pouco considerados, os médios (horas) contabilizados grosseiramente por velas, ampulhetas, relógios d'água, observação do Sol.
Apenas o clero, por necessidades litúrgicas, estabeleceu um controle maior sobre as horas, contando-as precariamente de três em três a partir da meia-noite (matinas, laudes, primas, terça, sexta, nona, vésperas, completas).
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Sexo
O surgimento do cristianismo respondia a essa demanda psicológica e comportamental da sociedade romana, daí seu sucesso. Tornado religião oficial em 392 e cada vez mais institucionalizado pela Igreja, já na Primeira Idade Média o cristianismo pôde impor seus
valores.
A vida sexual ideal passou a ser a inexistente. A virgindade tornou-se um grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. Vinha depois a castidade: quem já havia pecado podia em parte compensar essa falta abstendo-se de sexo pelo restante da vida. Os relatos hagiográficos de toda a Idade Média, sobretudo de suas duas primeiras fases, abundam em exemplos de santas que morreram para defender sua virgindade e de santos e santas que ao se converter ao cristianismo abandonaram a vida conjugal.
Contudo essa interferência eclesiástica na vida íntima dos fiéis não foi aceita com facilidade. Quanto mais recuados no tempo e mais afastados dos grandes centros clericais (sedes de bispado, mosteiros), mais os medievos puderam viver de forma “pagã”, no dizer da Igreja.
O matrimônio é uma relação monogâmica. Por um lado, isso atendia a um dado da mentalidade medieval, fascinada pela Unidade cosmológica, talvez como forma compensatória à grande diversidade da realidade concreta do Ocidente, dividido em vários reinos, milhares de feudos, dezenas de línguas e dialetos, diferentes liturgias (apenas com a Reforma Gregoriana tentou-se impor o rito galicano-romano a todas as regiões, o que demoraria a se concretizar). Assim, idealmente, ao Deus único deveria corresponder uma só Igreja, uma só fé, um só governante secular. Por outro lado, a monogamia respondia a uma lenta mas inegável transformação na sensibilidade coletiva — que a Igreja soube reconhecer e tornar lei — pela qual se passava a ver a essência do casamento no consentimento mútuo dos noivos. Isto é, a união deveria ser construída a partir do afeto recíproco, e não apenas de interesses políticos ou patrimoniais.
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Alimentação
Apesar das variações regionais de solo e clima, a Europa medieval consumia por toda parte praticamente os mesmos alimentos e bebidas, preparados quase que da mesma maneira.
Diferenças houve, acima de tudo, entre as categorias sociais. O aristocrata, eclesiástico ou leigo, recebia de seus camponeses, pelo uso da terra, prestações em serviço e produtos agrícolas. Podia, assim, consumir de tudo. Detentor de vários senhorios, um aristocrata não se fixava numa certa terra, morando cada parte do ano numa região, onde consumia a parcela da produção local que lhe cabia. Podia, então, ter alimentos todo o ano, independentemente das vicissitudes agrícolas de cada senhorio. Apesar disso, por razões culturais, o cardápio não era muito variado. Os legumes e verduras não estavam muito presentes, porque, sendo considerados produtos pouco nobres e de digestão difícil, ficavam reservados para dias de jejum. Os queijos, com exceção das regiões montanhosas, também eram desprezados pelas camadas dirigentes, que viam neles aumentos de camponeses, pela literatura, que os associava aos loucos, e pela medicina, que até o século XVI os considerava pouco saudáveis.
A base da alimentação aristocrática era, portanto, carnívora. Carne de animais domésticos, vaca, vitela, carneiro e sobretudo porco. Carne de caça, especial-mente cervo, javali e lebre. Carne de aves, galinha, pato, ganso, cisne, pombo. Carne de peixe de água doce onde possível, pescados em rios e lagos ou criados em tanques (carpa, sável, esturjão). Carne de peixe de mar, consumido fresco nas regiões litorâneas (salmão, linguado, pescado) ou seco nas regiões continentais (arenque, bacalhau). A bebida para acompanhar essas refeições era o vinho. A sobremesa nas mesas aristocráticas podia ser alguma fruta fresca (geralmente consumida no início das refeições ou nos intervalos entre elas) ou, mais comumente, frutas secas (figos, passas, amêndoas, nozes etc.) ou, preferencialmente, uma torta ou bolo doce.
A dieta burguesa procurava em linhas gerais imitar a aristocrática, sobretudo no seu fundamento carnívoro.
A alimentação camponesa estava baseada nos cereais, que forneciam as calorias necessárias para o esforço físico nas tarefas rurais. Cereais preparados sob a forma de papas e mingaus e especialmente de pão. Na verdade, o pão era essencial desde a Antigüidade.
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Moradia
a moradia apresentava grandes variedades regionais, resultantes das necessidades impostas pelo clima e das possibilidades permitidas pelos materiais de construção de cada local.
O norte úmido, frio e florestal definiu um estilo obviamente diferente do sul mediterrâneo seco, quente e pedregoso. As regiões montanhosas do norte ibérico, da zona pirenaica, do centro francês e da região alpina buscaram soluções próprias, diferenciadas das áreas planas. As cidades apresentavam, naturalmente, condições específicas, com uma grande população concentrada numa superfície pequena, enquanto o campo tinha uma densidade demográfica baixa. Mas, assim como os campos se diferenciavam pelo seu contexto geográfico, as cidades não eram iguais entre si. Uma grande sede feudal (como Troyes), a capital de um reino (caso de Londres), uma importante sé episcopal (Burgos, por exemplo), uma cidade dedicada ao comércio internacional (como Veneza ou Lübeck), uma cidade artesanal (como Ypres), um pequeno burgo rural (os mais comuns) não poderiam, por razões geográficas e profissionais, construir habitações e edifícios públicos da mesma forma.
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Vestuário
Por toda Idade Média a base do vestuário foi à túnica de mangas. Seu comprimento mudou várias vezes, mas geralmente ia até os tornozelos para as mulheres e até os joelhos para os homens. Debaixo dessa túnica usava-se uma camisa, longa no caso feminino, curta no masculino, pois os homens portavam ainda calções, uma espécie de ceroula que ia até os tornozelos. No inverno, quem tinha condições colocava diretamente no corpo, sob a camisa, uma peliça, espécie de colete de pele, sem mangas Por cima de tudo vinha uma capa, às vezes com capuz, de pele no caso dos mais ricos, de lã no dos mais simples. O calçado podia ser bota de couro de cano alto para os ricos ou simples sapatilha de tecido para os mais pobres. O uso de luvas era difundido em todas as categorias sociais.
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Lazer
Os medievais levavam uma vida material dura, os clérigos passando muitas horas por dia em orações, estudo e tarefas cotidianas de sua diocese ou mosteiro, os senhores laicos em exercícios militares e administração de seu senhorio, os burgueses em difíceis negociações e perigosas viagens, os camponeses num trabalho pesado e de retorno nem sempre compensador.
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Morte
Vivendo num mundo agrícola, em que se percebe cotidianamente como alguns seres precisam morrer para que outros possam viver, convivendo com a constante ameaça da fome, das epidemias e das guerras, os medievais sentiam a onipresença da morte, mas isso não os incomodava. Eles tinham dela uma visão natural, tranqüila, diferente da de seus descendentes dos séculos seguintes. Como o cristianismo ensina que a morte é o começo da vida eterna, e não o fim definitivo, chegado o momento as pessoas procuravam se preparar. A grande tragédia não era morrer, mas morrer inesperadamente, sem ter confessado, recebido os sacramentos, feito doações e esmolas, estabelecido o testamento. Tinha-se consciência e resignação pelo fato de que o destino das espécies vivas é morrer. A morte
nivela os homens e mostra o despropósito de seu orgulho e suas riquezas.
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Capítulo VIII - As estruturas mentais
Apenas há pouco tempo foi tornado objeto de estudo o fato óbvio de que o homem, e portanto a História, é formado tanto por seus sonhos, fantasias, angústias e esperanças quanto por seu trabalho, leis e guerras. Desta forma, é fundamental a compreensão do primeiro conjunto de elementos para que o segundo ganhe sentido. Bem entendido, não se trata de adotar uma postura determinista, atribuindo tudo à mentalidade (ou à economia, ou à política etc.)- Mas é preciso considerar o pano de fundo mental, “o nível mais estável, mais imóvel das sociedades” (LE GOFF: 69).
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A visão hierofânica de mundo
Para o homem medieval, o referencial de todas as coisas era sagrado, fenômeno psicossocial típico de sociedades agrárias, muito dependentes da natureza e, portanto, à mercê de forças desconhecidas e não controláveis.
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O simbolismo
“A função do símbolo é religar o alto e o baixo, criar entre o divino e o humano uma comunicação tal que eles se unam um ao outro” (39: 98). E encontro de duas realidades numa só, ou melhor, expressão da única realidade sob outra forma. O símbolo é inferior à realidade simbolizada, mas por intermédio daquele o homem se aproxima desta, restabelecendo a unidade primordial. Por isso ele está presente em todas as religiões, cujo sentido é exatamente esse de religar mundo humano e mundo divino. Entende-se, dessa forma, que a relação do símbolo com a coisa simbolizada seja profunda, de essencialidade.
Todos os elementos da natureza, animais, plantas, pedras, são símbolos, respondendo à necessidade de exprimir o invisível e o imaterial por meio do visível e do material. Por essa razão, o templo cristão não poderia deixar de ter forte carga simbólica, especialmente no período românico. A planta em cruz terminando numa cabeceira com várias capelas expressava a concepção de que a igreja era o próprio corpo de Cristo, daí o portal ser um arco do triunfo para se entrar no Reino de Deus.
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O belicismo
Esta característica da mentalidade medieval decorria da presença constante daquelas manifestações sagradas nas suas duas modalidades, vistas do ponto de vista humano, benéficas e maléficas. Elas prolongavam no palco terreno a luta que envolvia temporariamente todo o universo. Os poderes negativos constituíam-se numa realidade palpável para aquela sociedade de tempo rigidamente dividido entre dia e noite, sem luz artificial eficiente, na qual as trevas eram fortemente sentidas. Sua presença cotidiana era indisfarçável e esmagadora. As atividades humanas ficavam limitadas às horas diurnas. A noite era o momento do desconhecido, portanto do assustador. Significativamente, ela era circunstância agravante para a justiça medieval
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O contratualismo
Por fim, do belicismo derivava o contratualismo, estrutura mental que via o homem ligado, com os correspondentes direitos e deveres, a uma ou outra daquelas forças universais em luta. A opção pelo Mal dava origem ao chamado pacto demoníaco, como na conhecida história de Teófilo. Querendo ser nomeado vigário, ele recorreu aos serviços de um judeu que o levou até a presença do Diabo, de quem se tornou “bom vassalo” após renegar Cristo e Maria. Numa carta entregue ao “rei coroado” do Inferno, ele formalizava o acordo, e obteve então as glórias e vantagens que desejava. Depois, arrependido, pediu ajuda à Virgem, “porta do Paraíso”, para recuperar aquela carta, pois “isto foi o pior”, e sem reavê-la não poderia romper seu trato com Satanás. A Virgem o ajudou, o contrato demoníaco foi queimado e ele pôde ter sua alma salva.
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Capítulo IX - O significado da Idade Média
Após os exageros denegridores dos séculos XVI-XVII e os exaltadores do século XIX, hoje temos uma visão mais equilibrada sobre a Idade Média. E verdade que a divulgação que ela conheceu em fins do século XX fora dos meios acadêmicos — inúmeras publicações científicas e ficcionais, filmes, discos, exposições, turismo etc. — nem sempre implicou uma melhor compreensão daquele período. Mas reflete um dado essencial: a percepção que se tem da Idade Média como matriz da civilização ocidental cristã. Diante da crise atual dessa civilização, cresce a necessidade de se voltar às origens, de refazer o caminho, de identificar os problemas. Enfim, de conhecer a Idade Média para conhecer melhor os séculos XX-XXI.
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A longa Idade Média
Os quatro movimentos que se convencionou considerar inauguradores da Modernidade — Renascimento, Protestantismo, Descobrimentos, Centralização — são em grande parte
medievais. O primeiro deles, o Renascimento dos séculos XV-XVI, recorreu a modelos culturais clássicos, que a Idade Média também conhecera e amara. Aliás, foi em grande parte por meio dela que os renascentistas tomaram contato com a Antigüidade. As características básicas do movimento (individualismo, racionalismo, empirismo, neoplatonismo, humanismo) estavam presentes na cultura ocidental pelo menos desde princípios do século XII.
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A herança medieval no século XX
O patrimônio lingüístico ocidental é quase todo medieval, já que, com exceção do basco, idioma cujas origens continuam desconhecidas para os especialistas, às demais línguas formaram-se na Idade Média. Uma terça parte da população mundial atual, isto é, 2 bilhões de pessoas, pensa e se exprime com instrumentos lingüísticos forjados na Idade Média. De fato, ao lado do latim legado pela Antigüidade — e durante a Idade Média empregado nos ofícios religiosos, nas atividades intelectuais e na administração, mas língua morta no sentido de não ser mais língua materna de ninguém —, no século VIII nasceram os idiomas chamados de vulgares, falados cotidianamente por todos, mesmo pelos clérigos. Correndo o risco de simplificar em demasia um processo longo e complexo, podemos dizer que aqueles idiomas se formaram da interpenetração — em proporção diferente a cada caso — do celta, do latim e do germânico.
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A herança medieval no Brasil
Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-História enquanto a Europa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplicadas com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luís Weckmann detectou com pertinência a existência de uma herança medieval no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços essenciais.
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Conclusão - O nascimento do Ocidente
Homem atual se reconhece mais nas coisas superficiais, de origem recente, do que nas essenciais, que vêm daquela época. Este é um grave problema do mundo atual, no qual os
meios de comunicação de massa uniformizam, apagam e constroem fatos incessantemente. Desta forma, há um afastamento da cultura, baseada no indivíduo, na inquietação, na interrogação, não em respostas prontas e rápidas.
A fraqueza do homem medieval era sua força, pois gerava desejos, motivações. A força do homem atual é sua fraqueza, pois gera desilusões. Na verdade, foi conseguindo ao longo dos séculos satisfazer aqueles desejos que o homem chegou à situação atual. Satisfação de desejos que se deu mais no plano material do que no espiritual, daí certa sensação de vazio, de falta de sentido das coisas, que a arte e a literatura contemporâneas expressam fartamente. De certa forma, a crise da civilização ocidental deve se ao descompasso entre o externo (contemporâneo) e o interno (medieval). E uma excessiva valorização do primeiro em detrimento do segundo. E uma espécie de esquizofrenia coletiva e social. Em razão disso, os crescentes prestígio e popularidade dos estudos sobre a Idade Média têm algo, inconscientemente, de busca de reintegração dos dois planos.

21 de set. de 2008

Os Voluntários da Pátria

Resenha das pessoas que são citadas no livro:

Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai, Volume Dois –Tomo II – O Comando de Osório. Gen. Paulo de Queiroz Teles. Biblioteca do Exercito Editora: Rio de Janeiro: 1983.


8º Corpo de Voluntários da Pátria – Província do Rio de Janeiro
Formado com contingente fluminense, sergipanos e alagoanos.
Comando do Tenente-Coronel da Guarda Nacional Francisco Félix de Freitas Barreto.
Fiscal o Major Porfírio de Castro Araújo.
O 8º Corpo foi designado para o Rio Grande do Sul, sendo incluído na 3ª Brigada, do Coronel de Artilharia Higino José Coelho. Contava com a 2ª Divisão de Infantaria comandada pelo Brigadeiro Joaquim José Gonçalves Fontes.
Posteriormente o 8º Corpo de Voluntário passou a pertencer a 2ª Brigada, comandada pelo Tenente-Coronel Pedro Feguerstein (que faleceu em Uruguaiana), fazendo parte também o 5º Voluntário e o 11º Batalhão de Infantaria provisório.
Com a doença do Tenente-Coronel Feguerstein, passou a comandar a 2ª Brigada o Tenente-Coronel Barros e Vasconcelos.
Quando voltava no encouraçado Rio de Janeiro, que fazia o transporte dos transportes, bateu um torpedo submarino, que explodiu em seu casco, abrindo um grande rombo que o fez submergir levando um grande numero de homens da guarnição e o comandante, o 1º Tenente Américo Solvado, um segundo-tenente, um guarda-marinha, todos os maquinistas e 45 praças. Salvaram-se cerca de 60 homens e o imediato, o 1º Tenente Custódio José de Melo.
O comandante interino Major Rufino Voltaire Carapeba, na ação em Curuzu, fez honrosa menção ao Capitão Marcolino José Dias, que desasteou a bandeira inimiga, o Alferes João Esteves de Freitas, o primeiro a transpor o entrincheiramento pelo lado direito, e o soldado da 5ª Companhia, José Antonio da Penha, um dos primeiros a transpor o entrincheiramento, por tomado uma bandeira de um batalhão inimigo e por salvado o Alferes Donato José de Mendonça, que se batia com um inimigo. Nessa ação foram abatidos, o Tenente Joaquim de Calazans, que faleceu horas depois no hospital, Tenente Ernesto Silveira da Veiga; e feridos o capitão Francisco José Travassos, Alferes José Caetano de Távora e Manoel Antonio da Silva, o Capitão Marcolino José Dias e o Alferes João Ferreira da Fonseca Doria.
O 8º Corpo tomou parte do Assalto de Curupaiti sob o comando do Tenente-Coronel Antonio da Silva Paranhos. Saíram de combate por morte o voluntário paisano Francisco Camerino e por ferimento os Alferes Ajudantes Leopoldo Antonio da França Amaral e Geraldo José de Abreu, o Capitão fiscal Francelino José de Carvalho e Andrade, o Alferes Ernesto Gonçalves Pontes, Francisco Cardoso de Meneses Fraga e Jacinto Feliciano da Conceição.
Lutaram ao lado do 29º Corpo de Voluntários do Capitão Marciano Landulfo da Rocha Medrado.
Em 20/12/1866, com modificações introduzidas nas organizações, pelo comandado do Marques de Caxias, o 8º Corpo passou a ter o número 37º de Voluntários, que havia pertencido a um batalhão da Guarda Nacional do Maranhão.

9º Corpo de Voluntários da Pátria – Província do Rio de Janeiro
Formado com contingente fluminense, sergipanos e alagoanos.
Comando do Tenente-Coronel Joaquim Cavalcanti de Albuquerque Belo.
Foi dissolvido antes de tomar contato com outros Corpos.

9º Corpo de Voluntários da Pátria – Província do Rio Grande do Sul
O presidente da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Dr. João Marcelino de Souza Gonzaga, solicitou ao Comandante Superior da Guarda Nacional de Porto Alegre, o Marechal Luís Manoel de Lima e Silva, o encargo de organizar um Corpo de Voluntários. Nomeou-se o Tenente-Coronel Joaquim Manoel de Azambuja Viana como comandante do Corpo em organização. Incorporou também o Tenente Inácio Joaquim de Camargo e o Alferes Valencio Moreira da Silva, do recente Corpo Policial. Em 14/06/1865 nomeou para Comandante do Corpo o Major José de Oliveira Bueno.
Na organização dada pelo General Osório ao seu Exercito no acampamento de Tala-Corá, o 9º Corpo passou a fazer parte da 7ª Brigada de Infantaria, comandada pelo Coronel Jacinto Machado Bittencourt. A 7ª Brigada integrava a 3ª Divisão, do Brigadeiro Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, seu comandante e de seis unidades: 1º e 13º Batalhões de Linha e dos 6º, 9º e 11º Corpos de Voluntários e o Corpo de Zuavos baiano, contanto com o efetivo de 3.072 homens.
Em 6/04/1866 ao ocupar um banco de areia, situado no fronteiro ao Forte paraguaio, que eles chamavam de Banco Purutué, por sugestão do Tenente-Coronel de Engenharia João Carlos de Vilagran Cabrita, batizaram de Ilha da Redenção.
Depois a 7ª Brigada passou a pertencer à 3ª Divisão do brigadeiro Antonio de Sampaio, que cedeu a sua 8ª Brigada para a 1ª Divisão.
Na Batalha de Tuiuti caiu ferido o comandante do 9º de Voluntários, Tenente-Coronel José de Oliveira Bueno, sendo substituído pelo Major em comissão Ernesto Machado Freire Pereira da Silva, o Capitão João Teixeira Guimarães e o Alferes João Fernandes de Lemos.
O Coronel Jacinto Machado Bittencourt faz menção de bravos aos oficiais: Capitães Luis Antonio Machado Rosa e Joaquim Inácio Godinho; Tenentes Valencio Moreira da Silva e José Joaquim Pimentel; Alferes Dionísio José de Ornelas Filho, Francisco Sabóia de Almeida, Inácio de Oliveira Bueno e João Leite Pereira da Cunha; os inferiores e praças: 1º Sargento João José Pinheiro, 2ºs Joaquim José Reis e Teodoro Guilherme von Onoske; cabos-de-esquadra Manoel Mário da Costa e Levino de Almeida Pinto; Soldados Fernando Rollando, Antonio de Queiroz e Francisco Antonio Correa.
Antes do Combate de Punta Ñaró deixou o comando do 1º Corpo de Exército o Barão do Herval, sendo substituído pelo Marechal-de-Campo Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão.
Do 9º Corpo de Voluntários feriu o major em comissão Antonio José Pereira Júnior, assumindo a direção do Corpo o Capitão Luis Antonio Machado da Rosa.
Tenente-Coronel Antonio da Silva Paranhos deixou o 6º Corpo a disposição do Tenente-Coronel José Martini, comandante do 14º Batalhão de Infantaria, para atender ao 9º de Voluntários, cujo comandante, Antonio Jose Pereira Junior, Major em Comissão, fora ferido. Ao qual passou ao Major José Antonio de Oliveira Botelho, por ter o Tenente-Coronel Antonio da Silva Paranhos se ferido por bala de fuzil. Sendo o 9º Voluntário assumido pelo Capitão Luis Antonio Machado Rosa.
Depois recebeu novo Comandante o Major em comissão Antonio Pedro Heitor.
Em 24/11/1866, pela Ordem do Dia nº 4, do Marquês de Caxias, era nomeado o Major Genuíno Olímpio de Sampaio para comandar o 9º Corpo de Voluntários.
Pela Ordem do Dia nº 14, alterou-se a designação do 9º Corpo para 39º Corpo de Voluntários da Pátria.

10º Corpo de Voluntários da Pátria – Corpo de Polícia da Bahia
A Bahia foi à terra brasileira que mais contingentes de voluntários ofereceu para a defesa da honra e dignidade do Império.
O Tenente-Coronel Joaquim Mauricio Ferreira, em 2/2/1865 ofereceu-se para com o Corpo de seu comando tomar parte na vingança da Pátria com o Batalhão de Policia, composto por 600 praças, que foi aceito pelo 29º Presidente da Província, o Desembargador Luis Antonio Barbosa de Almeida.
Assim deixaram em 23/01/1865, o Corpo de Polícia da Bahia, sob o comandando do Tenente-Coronel Joaquim Mauricio Ferreira, irmão da benemérita patriota Ana Nery (Ana Justino Ferreira Nery), que nasceu na vila de Cachoeira do Paraguaçu – Província da Bahia, e o Corpo de Caçadores de Linha, sob o comando do Tenente-Coronel do Exército D. José Baltazar da Silveira rumo ao Sul.
O 10º Corpo juntou-se ao Batalhão de Osório. Em nas travessias perderam vitimados pela cólera-morbo, os capitães Irenio Gentil (10/06/1865) e José Maria da Silva Rabelo (3/12/1865).
O 10º Corpo de Voluntários juntou-se a 3ª Divisão de Infantaria, do Brigadeiro Sampaio, que contava com a 5ª Brigada, do Coronel André Alves de Oliveira Belo, e a 8ª Brigada, do Coronel D. José Baltazar da Silveira.
Na Batalha de Tuiuti o Tenente-Coronel Joaquim Mauricio Ferreira foi ferido na mão esquerda, entregando o Corpo ao Major José Antonio de Queiroz. Fora porta-bandeira do 10º Corpo de Voluntários, o Alferes Pedro Antonio Nery, filho de dona Ana Nery e sobrinho do Comandante Joaquim Mauricio Ferreira.
Perderam-se 44 homens entre eles o capitão Augusto César Guimarães, o Capitão Joaquim Frederico Kiappe da Costa Rubim, que faleceu no vapor Riachuelo a caminho do hospital, e o Capitão José Francisco Santiago.
Antes do Combate de Punta Ñaró faleceu, 2/6/1866, o Alferes Leopoldo da Rocha Moreira, no Hospital de Corrientes, por hipertrofia do coração.
Em 15/06 assumiu o 1º Corpo do Exercito o Marechal-de-Campo Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão, em substituição ao General Osório.
No Combate de Isla Carapá o Alferes comandante interino Luis dos Santos Castro, fez constar à coragem e o sangue frio do Alferes Guilhermino Manoel Joaquim, que faleceu no dia seguinte, e dos soldados Balduino Antonio Rodrigues e Domingos Matheus, gravemente feridos.
O Tenente Comandante da 6ª Companhia e do 10º Corpo de Voluntários da Pátria, Aurélio Borges de Figueiredo, fez constar dignos louvores ao Alferes Ângelo Martins e José Argemiro de Carvalho, ao 1º Sargento Francisco Pereira das Neves, 2º Cadete 2º Sargento Antonio Tertuliano de Carvalho, Anspeçada Gregório Bispo de Sant’Ana e os Soldados José Vieira dos Santos e Manoel Joaquim Pihany, pela bravura e sangue frio com que se portaram.
Antes do Assalto de Curupaiti estava no comando interino do 10º Corpo o Major João Adolfo de Souza Barreto, que foi violentamente fuzilado quando se encontrava junto ao entrincheiramento, cabendo o comando ao Capitão Antonio O de Almeida.
Em sua parte o Capitão Antonio O de Almeida fez constar que foram feridos o Capitão fiscal Estevão Caetano da Cunha, os Capitães: Custódio Floro da Silva Fragoso e Militão de Jesus Pires; os Tenentes Aurélio Borges de Figueiredo, Antonio César Navarro e Jose Francisco de Santiago e os Alferes João Capistrano Teixeira, Clementino de Paula Souza Malagueta e Antonio de Vasconcelos e o Tenente Avelino Monteiro de Carvalho. Fez menção também ao Tenente Israel Bezerra de Meneses e os Alferes Luis dos Santos Castro, João Lopes de Carvalho, José Argemiro de Carvalho, Florentino Nunes de Santiago, Nicolau da Silveira e Antonio Alves Henrique, que conduzira a Bandeira.
Em 1º/12/1866 faleceu o Alferes João Capistrano Teixeira, no Hospital Saladeiro, na cidade de Corrientes, em conseqüência de ferimentos recebidos em combate.
Em 20/12/1866, o Marquês de Caxias, em Ordem do Dia nº 14, o 10º Corpo de Voluntários da Pátria passou a ser 41º Corpo de Voluntários.

11º Corpo de Voluntários da Pátria – Província de Pernambuco
Constituiu-se em Recife durante a Presidência do Dr. Antonio Borges Leal Castelo Branco, e fez publicar de acordo com o Comandante das Armas, Coronel José Maria Ildefonso Jacome da Veiga Pessoa, no Diário de Pernambuco, o Decreto 3.371. Nomeou o Capitão Antonio Pedro Heitor para receber os voluntários no quartel da Rua do Hospício, depois transferido para o Forte das Cinco Pontas.
Seguiu em 29/4/1865 no Vapor São Francisco com destino a Corte, sob o comando do Coronel do Corpo do Estado Maior de 2ª Classe Antonio Gomes Leal.
O Corpo estava assim constituído:
Comandante – Coronel de Estado Maior de 2ª Classe Antonio Gomes Leal
Tenente Ajudante – 2º Tenente de Artilharia a pé José Antonio Ribeiro de Freitas
1ª Companhia – Capitão Dr. José Paulino da Câmara
2ª Companhia – Capitão José Luis Pereira
3ª Companhia – Tenente reformado do Exercito Quintiliano Henriques da Silva Primavera
4ª Companhia – Capitão João Vicente de Brito Galvão
5ª Companhia – Capitão Hermilo Peregrino David Madeira
6ª Companhia – Tenente do Exercito José do Rego Barros
7ª Companhia – Tenente do 4º Batalhão de Artilharia Francisco José da Silva
8ª Companhia – Tenente reformado do Exercito Francisco Gonçalves de Arruda
Ao chegar junto ao Exercito do General Osório, o Corpo foi destacado para a 3ª Divisão, do Brigadeiro Antonio de Sampaio, e na 10ª Brigada, que fico sendo comandada pelo Coronel Antonio Gomes Leal. O Corpo ganhou como fiscal o Capitão João Antonio de Oliveira Volporto, procedente do 4º Batalhão de Linha e para o Comando o Major José de Cerqueira Lima.
Depois o 11º Corpo de Voluntários passou a fazer parte da 1ª Divisão, do Brigadeiro José Soares Andréa.
De 19 de agosto a 8/11/1865, o 11º Corpo passou a ser comandado pelo Major em comissão João do Rego Barros Falcão.
Em 23 de outubro de 1865 o 11º de Voluntários passou a fazer parte da 7ª Brigada de Infantaria, comandada pelo Coronel Jacinto Machado Bittencourt. Em 3 de novembro de 1865 deixou o comando o Major João do Rego Barros Falcão, sendo substituído pelo Major em comissão Inocêncio José Cavalcante de Albuquerque, procedente do 6º Corpo de Voluntários.
Em 11 de janeiro de 1866 era nomeado fiscal o Capitão do 13º Batalhão de Infantaria Francisco Bibiano de Castro.
Em 1º de março de 1866 o 11º Corpo de Voluntários fazia parte da 7ª Brigada, do coronel Machado Bittencourt e esta da 1ª Divisão do Brigadeiro Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, que contava ainda com a 10ª Brigada do Coronel Carlos Resin.
O 11º combateu sob o comando do Major Manoel Deodoro da Fonseca, comandante do 2º de Voluntário, nos seus primeiros combates.
Tendo ferido o seu comandante, Major Inocêncio Cavalcante de Albuquerque, que foi substituído na ação pelo Capitão Jose de Almeida Barreto.
No combate do Estero Bellaco em que o 11º Corpo de Voluntário teve papel destacado em repelir o inimigo, tendo os paraguaios 2.300 homens entre mortos e feridos.
Fazendo menção honrosa, o Major Inocêncio, cita: Major Joaquim Inácio Ribeiro Lima, Capitão João Vicente de Brito Galvão, Capitão Hermilo Peregrino David Madeira, Tenente-Ajudante Jose Antonio de Freitas, Tenente Francisco Gomes Silveira, Tenente Rufino Marques Camacho, Alferes Manuel Coriolando dos Santos, Alferes José Severino de Almeida Pedrosa, Antonio Cerqueira Torres, Fernando Pacifico de Aguiar Montenegro, Alferes Francisco Vidal de Aranha Montenegro, Alferes José Geraldo de Aragão, Alferes Mariano dos Reis Espíndola, Alferes Laurindo Fernandes da Rocha, Sargento Ajudante José Maria Marques de Carvalho, 2º Cadete 1º Sargento Heleodoro Avelino de Souza Monteiro, Músico Manoel Joaquim Alves de Oliveira, Cabo João Pacheco de Faria, Soldado Candido Lopes de Moraes, ferido em combate, Soldado Lino José de Sant’Ana, Cadete Joaquim Marques de S. Tiago, Cabo Francisco José Timóteo, 2º Cadete Luis Cardoso da Silva, morto em combate, Tambor Mamede José de Sant’Ana, que atirou e, no tambor efetuou toques de avançar, o Capitão José Luis Pereira, comandante da 2ª Companhia, e o Tenente Manoel de Carvalho Paes de Andrade Gouvêa, foram feridos no começo do combate.
Por desentendimento entre o Major Joaquim Inácio Ribeiro Lima e o Major Inocêncio José Cavalcante de Albuquerque, deixou o Major Joaquim o 11º e transferiu-se para o 26º de Voluntários e em seu lugar foi mandado o Capitão Serafim Felix de Paiva.
No decurso da Batalha de Tuiuti o Brigadeiro Sampaio recebeu três ferimentos mortais e foi substituído pelo comandante da 7ª Brigada, Coronel Machado Bittencourt, assumindo o comando interino da 7ª, em seu lugar, o Tenente-Coronel Antonio da Silva Paranhos, comandante efetivo do 6º Batalha de linha. Foram presos: o Major Yegros, em Rojas, e o Capitão Corbalan, todos ex-ajudantes de López.
O Major Comandante Inocêncio José Cavalcante de Albuquerque e o Major fiscal Serafim Felix de Paiva foram feridos quase simultaneamente foram substituídos pelos Capitães José de Almeida Barreto e José Antonio Ribeiro de Freitas. Foram feridos ainda o Capitão José Antonio Ribeiro de Freitas e o Capitão João Vicente de Brito Galvão. Ente os que receberam referencias de elogio figura o Alferes Domingos Leão do Rego Barros por ter conduziu o estandarte do Corpo, que perdeu a esmeralda do brasão por tiro. O Capitão Inocêncio José de Albuquerque veio a falecer no dia 26/06/1866, na cidade de Corrientes, em conseqüência de ferimentos recebidos no combate do dia 24/06/1866, deixando sua esposa D. Joaquina da Costa da Mata Cavalcante e seus filhos, sendo cinco menores.
Na Ordem do Dia nº 158, de 28/06/2008, o Barão de Herval designava novo comandante para o 11º Corpo de Voluntários, o Major Antonio Pedro Heitor, que no inicio da campanha comandava a 3ª Companhia do 7º Batalhão de linha. Mas em 8/7/1866 passou a ser comandado pelo Major do 26º Corpo de voluntários Joaquim Inácio Ribeiro Lima e para fiscal, o Major Antonio Pedro Heitor.
O General Osório deixa o comando do 1º Corpo do Exercito ao Marechal-de-Campo Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão, para tratar de sua saúde.
No combate de Punta Ñaró tomou parte do Destacamento do Brigadeiro José Luis Mena Barreto, juntamente com a 5ª Brigada, sob o comando do Coronel André Alves Leite de Oliveira Belo.
Em 5/08/1866 foi nomeado como fiscal do Corpo o Major em Comissão Antonio Lourenço da Silva Castro, sendo o Major fiscal Antonio Pedro Heitor enviado ao 19º Batalhão de linha.
No Assalto de Curupaiti a bandeira do 11º Voluntários, que era conduzida pelo Alferes João Deoclécio da Silva Paula, foi despedaçada por uma granada que lhe produziu um rasgão de forma angular. Recebendo o Alferes João Deoclécio da Silva Paula elogios do Major Comandante Joaquim Inácio Ribeiro Lima, assim como: os mortos, o Major João Adolfo de Souza Barreto, Comandante do 10º Corpo de Voluntários da Pátria, que recebeu dois ferimentos de bala lutou até cair morto entre seus soldados, Alferes Manoel Coriolano dos Santos, Alferes José Coriolano Mendes Lima e o Alferes José Cipriano da Costa; os feridos, Capitão Hermilo Peregrino David Madeira, Capitão João Xavier do Rego Barros, Tenente Hermógenes Jorge Pita, Alferes Miguel Joaquim do Rego Barros, Alferes Mariano dos Reis Espindola, Alferes Antonio Jose Cerqueira Torres, Alferes Domingos de Souza Leão do Rego Barros e o Alferes Fernando Pacifico de Aguiar Montarroios; e homens, tenente João Silvério de Azevedo Pimentel, Tenente Guilherme Manoel dos Passos Ramos, Tenente José Francisco Cordoro Avelino de Souza Monteiro, Tenente José Geraldes de Aragão, Manoel Francisco de Paula e Samuel Lopes Delgado Marajó, o Capitão José Antonio Ribeiro Freitas, Alferes Francisco de Paula Antunes Hudson, o Tenente quartel-mestre Francisco José da Silva.
Os condecorados do 11º de Voluntários: com a Ordem de Cristo, Grau de Cavaleiro, o Alferes João Deocleciano da Silva Paula, porta-estandarte, pelos serviços prestados nos combates de 24 de maio e 22 de setembro de 1866 – Decreto de 14/03/1867; com a Ordem de Cristo, Grau de Cavaleiro, o Tenente quartel-mestre Francisco José da Silva – Decreto de 14/03/1867; com a Ordem de Cristo, Grau de Cavaleiro, o Alferes Heleodo Avelino de Souza Martins – Decreto de 14/03/1867; com a Ordem da Rosa, Grau de Cavaleiro, o Soldado Inácio João José da Cruz – Decreto de 14/03/1867; com a Ordem da Rosa, Grau de Cavaleiro, o 2º Cadete 2º Sargento Augusto César Cavalcanti de Albuquerque – Decreto de 14/03/1867.
Em 23 de novembro 11º Voluntários passava a fazer parte do 2º Corpo do Exercito, tomando a designação de 10ª Brigada de Infantaria. Sendo o seu Comandante, Tenente-General Visconde de Porto Alegre, retirado por doença, sendo substituído pelo Marechal-de-Campo Alexandre Gomes de Argolo Ferrão.
Em conseqüência da reorganização geral nos Corpos de Voluntários, o 11º Corpo de Voluntários, organizado no principio de 1865, no Recife, passou a ser designado como 42º Corpo de Voluntários da Pátria.

12º Corpo de Voluntários da Pátria – Corpo de Policia da Província do Rio de Janeiro
O 12º Corpo foi organizado na cidade de Niterói, Capital da Província do Rio de Janeiro, com o Corpo Policial sob o comandante o Capitão reformado do Exercito João Jose de Brito, ao tempo do Conselheiro Dr.Bernardo de Souza Franco.
Na função de fiscal do Corpo ficou o Major Antonio Luis Bandeira de Gouvêa. Viajaram junto com a 9ª Brigada e o Copo de linha do Espírito Santo, sendo a viagem registrada pelo Alferes Miguel Calmon du Pin Lisboa.
Já em Montevidéu passou a comandar a 9ª Brigada o Coronel João Guilherme Bruce, que havia engajado no serviço do Império no posto de 2º Tenente, em 8/08/1827, e demitido cinco anos depois por ser estrangeiro, sendo readmitido em 15/10/1839 no posto de Capitão, alcançando o coronelato da sua Arma por antiguidade em 2/12/1861. No começo da guerra comandava o 7º Batalhão de Fuzileiros.
Na retomada de Corriente, a Brigada de Bruce, teve 5 praças mortos e 6 feridos, entre este o Tenente Herculano de Souza Magalhães. Por este ataque o Governo, concedeu ao Major Antonio Luis Bandeira de Gouvêa a Ordem da Rosa grau de Oficial. Desse ataque, assistiram os seguintes oficias do 12º Corpo de Voluntários da Pátria: Tenente-Coronel João Jose de Brito, comandante; Major-fiscal Antonio Luis Bandeira de Gouvêa; Alferes-Ajudante Antonio Luis Rodrigues; Alferes Quartel-Mestre Jose Joaquim Rodrigues; Alferes Secretário João Carlos de Melo e Souza; Comandante da 1ª Companhia, Capitão Domingos Jorge Freire; Comandante da 2ª Companhia, o Capitão Antonio dos Santos Rocha; Comandante da 3ª Companhia, o Capitão Manoel Rodrigues de Lima; Comandante da 4ª Companhia, o Capitão Domingos Carlos de Sá Mirantea; Comandante da 5ª Companhia, o Capitão Antonio Jose da Cunha; e o Comandante da 6ª Companhia, o Capitão Antonio Muniz Teles de Sampaio.
Na Batalha do Riachuelo a Força Naval Brasileira estava sob o Comando do Chefe-de-Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva, que era composta por duas divisões, de nove vapores. A 2ª Divisão era formada de cinco unidades: fragata a vapor, de rodas, Amazonas, comandada pelo Capitão-de-Fragata Teodósio Raimundo de Brito; a corveta Parnaíba, de 7 canhões, comandada pelo Capitão-Tenente Aurélio Gracindo Fernandes de Sá; a canhoneira Iguatemi, de 5 canhões, comandada, pelo 1º Tenente Justino José de Macedo Coimbra; a canhoneira Araguari, de 4 canhões, comandada pelo 1º Tenente Antonio Luis von Hoonholtz; e a canhoneira Mearim, de 7 canhões, comandada pelo 1º Tenente Elisário José Barbosa. A 3ª Divisão era comandada pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra José Secundino de Gomensoro e constituída de quatro unidades: corveta Jequitinhonha, capitania, de 8 canhões, comandada pelo Capitão-Tenente Joaquim José Pinto; a corveta Beberibe de 7 canhões, comandada pelo Capitão-Tenente Joaquim Bonifácio de Sant’Ana; a corveta Belmonte, de 8 canhões, comandada pelo 1º Tenente Joaquim Francisco de Abreu; e a canhoneira Ipiranga, de 7 canhões, comandada pelo 1º Tenente Álvaro Augusto de Carvalho.
Na batalha a Ipiranga contava com 65 homens do 12º Corpo de Voluntários, 3 oficiais, sob o comando do Tenente João Correa de Andrade. A Belmonte se acha alagada e inutilizada. A Jequetinhonha ficou encalhada. Na Parnaíba defronte a curva do Rincão de La Graña, foi abordada, sendo o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh e o Capitão Pedro Afonso Ferreira, mortos em luta. A vitória do Riachuelo acarretou o recuo da coluna paraguaia do General Robles.
O Comandante do Amazonas, Capitão-de-Fragata Teotônio Raimundo de Brito relatou: 34 baixas, sendo do 9º Batalhão de Infantaria 23, 5 soldados mortos e 18 feridos; o Cadete Braziliano Bandeira de Melo César Loureiro, ferido na barriga, falecendo 24 horas depois; 2 furriéis, 1 anspeçada e 14 soldados. O Comandante interino do Jequetinhonha, o Capitão-Tenente Joaquim José Pinto, relatou entre os mortos: o alferes Sebastião Raimundo Everton e 10 praças; feridos 15, todos do 1º Batalhão de Infantaria. O Capitão-Tenente Joaquim de Sant’Ana, do Beberibe relatou baixa do Corpo de Guarnição do Espírito Santo: morto o soldado Antonio Pinto da Silva; feridos o Tenente Manoel Francisco Imperial e 3 soldados. O Capitão-Tenente Aurélio Gracindo Fernandes de Sá, do Parnaíba, relatou as vidas sacrificadas no altar da pátria: o Capitão do 9º de Infantaria Pedro Afonso Ferreira, o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh, Tenente Feliciano J. de Andrade Maia; elogiando: o Capitão Timoleão Peres de Albuquerque Maranhão, o Tenente Leopoldo Borges Galvão Uchoa, Alferes Francisco de Paula Barros, Alferes Pedro Velho de Sá Albuquerque e Alferes Francisco de Sá Barreto Júnior. O 1º Tenente Justino José Macedo Coimbra, comandante do Iguatemi relatou: feridos, o Soldado Francisco Bernardino de Paula, Soldado Bernardino Francisco Teixeira, Soldado Manoel Pinto Lopes Rangel e o Marinheiro de 3ª Classe Pedro Alexandre. O 1º Tenente Álvaro Augusto de Carvalho do Ipiranga relatou: elogiou, o 1º Tenente Joaquim Candido dos Reis, o Guarda-Marinha Francisco Augusto de Paiva, 1º Sargento Delfino Tavares da Silva Dias, o Tenente João Correa de Andrade, o Alferes Antonio Fermino da Costa e o Alferes José Joaquim Rodrigues de Araújo; mortos, o Alferes do Batalhão Depósito de Santa Catarina Faustino José da Silveira; feridos, o soldado do 12º Corpo de Voluntários Antonio José de Oliveira, fratura exposta no antebraço esquerdo; o soldado do 12º Corpo de Voluntários Antonio Joaquim de Oliveira, por instrumento cortante na mão direita.
O Tenente Antonio Pacheco de Carvalho do 12º Corpo, que servia a bordo da canhoneira Mearim, desapareceu no Curso da Bala.
Na Passagem de Cuevas, uma das companhias do 12º Corpo, sob o Comando do Capitão Antonio José da Cunha, seguia na canhoneira Ipiranga, que receberam vários impactos que lhe abriram rombos ao lume d’água. Tento fora de combate 59 homens: 21 mortos e 30 feridos, inclusos do 12º o Alferes Marcelino Barbosa Leal e o Aspirante de Marinha Joaquim Candido do Nascimento.
No Assalto de Curupaiti, o 12º Corpo continuava sob o comando do Tenente-Coronel João José de Brito, que relata: feridos: o Alferes José Lopes Ferreira, que conduzia a Bandeira e quando iria crava-la na trincheira inimiga teve a mão despedaçada por uma bala; o alferes Luís José Garcia; o Sargento-Brigada Cândido Matias de faria Pardal; Alferes Antonio Fermino da Costa; o Alferes Bernardino Antonio de Paiva; o Alferes Viriato de Melo Barreto; o Alferes Candido da Silva Lopes; e o Alferes João Carlos de Melo e Souza, morto: o Alferes Santino Monteiro de Melo.
Foram agraciados com as medalhas: da Ordem da Rosa, grau de oficial, pelos combates de 24 de maio e 22 de setembro, o comandante o Tenente-Coronel João José de Brito; e da Ordem de Cristo, grau de cavaleiro o Alferes Gratulino de Araújo Costa – Decreto de 14/03/1867.
Em face das mudanças, promovido pelo Marques de Caxias, o 12º Corpo de Voluntários da Pátria ex-Corpo de Policia da Província do Rio de Janeiro, passou a ser, daí por diante o 44º Corpo de Voluntários.

13º Corpo de Voluntários da Pátria – Corpo de Policia da Província do Pará
O Presidente da Província o Dr. José Vieira Couto Magalhães, criou o Corpo Paraense de Voluntários da Pátria, com cinco companhias, ficando composto assim:
Tenente-Coronel – Joaquim Cavalcanti d’Albuquerque Belo (comandante do Corpo de Policia)
Major Fiscal – Antonio Nicolau Monteiro Baena
Alferes Ajudante – Francisco Antonio Nepomuceno
Alferes Secretário – Joaquim Pereira Dias
Alferes Quartel-Mestre – Cosme Francisco Pereira
Comandante da 1ª Cia – Capitão Raimundo Antonio Gomes (do Corpo de Policia)
Comandante da 2ª Cia – Capitão Salustiano Antonio Monteiro (do Corpo de Policia)
Comandante da 3ª Cia – Capitão Antonio d Ó d’Almeida (1º Batalhão da Guarda Nacional)
Comandante da 4ª Cia – Tenente José X. da Costa Cabedo (2º Batalhão da Guarda Nacional)
Comandante da 5ª Cia – Alferes Franklin Tupinambá Maribondo da Trindade (do Corpo de Caçadores de Goiás)
Da Corte embarcou no Oiapoque em 23/04/1865 com um efetivo de 549 homens, sendo 19 oficiais, quando juntaram ao Exercito do General Osório em fins de maio, o Batalhão do Pará possuía 400 e poucas praças, em um mês extinguira-se quase todo, em conseqüência das enfermidades, do principio de inverno, e da qualidade da alimentação.
Em 15/07/1865, o General Osório, dissolveu o 13º Corpo de Voluntários e incorporaram suas praças nas fileiras do 6º de Voluntários.

13º Corpo de Voluntários da Pátria – Província do Paraná
Com a extinção do Batalhão Paraense, foi dado por Osório em 16/2/1866, no acampamento de Tala-Corá, ao Corpo Organizado na Província do Paraná, vindos de Curitiba, sob o comando do Tenente-Coronel José Maria Barreto Falcão. Incorporado ao Exercito, passou a pertencer a 2ª Brigada de Infantaria, do comando dd Coronel Joaquim Rodrigues Coelho Kelly, da qual também faziam parte o 14º Batalhão de Infantaria e o 1º Corpo de Voluntários.
Quando Caxias assumiu e reorganizou os Corpos de Voluntários o 13º já não existia.

14º Corpo de Voluntários da Pátria – cidade de Cachoeira Província da Bahia
O 14º Corpo formou-se sob o comando do Tenente-Coronel da Guarda Nacional José Pinto da Silva. Levaram o efetivo de 387 homens, sendo 24 oficiais. Foi nomeado o Major fiscal o Capitão João Nepomuceno da Silva, do 13º Batalhão.
O Coronel João Guilherme Bruce, Comandante da 9ª Brigada, ao qual o 14º Corpo juntou-se, relatou após Cuevas: mortos - Alferes Marcelino Barbosa Leal, morto por uma bala no coração, a bordo da canhoneira Magé; 2º Sargento Duval da Silva Nunes, ferido gravemente e falecido 6 horas após o combate; feridos - Furriel Bento Gonçalves dos Reis, ferido em ambas pernas, que foram amputadas; 1º Cadete Fernando de Souza Lima; e outro soldado a bordo da corveta Beberibe.
Na reorganização por estar com efetivo reduzido, foi dissolvido pelo General Osório, ficando a ala esquerda incorporada ao 16º Batalhão de linha e a ala direita ao 10º Corpo de Voluntários, ex-Corpo de Polícia da Bahia.
O comandante Tenente-Coronel José Pinto da Silva foi contemplando com a Ordem Imperial do Cruzeiro, grau Cavaleiro, pela passagem da barranca de lãs Cuevas.

14º Corpo de Voluntários da Pátria – Província de Pernambuco
O 14º de Voluntários foi incluído no 1º Corpo do Exercito, sob o comando do Capitão Policarpo Jorge de Campos, incorporado à 14ª Brigada, comandada pelo Tenente-Coronel do Exercito Salustiano Jerônimo dos Reis, da qual faziam parte o 2º Batalhão de linha e os 21º e 30º Corpos de Voluntários. A 14ª Brigada compunha, junto com a 12ª e 18ª, a 6ª Divisão de Infantaria, comandada pelo Brigadeiro Vitorino Jose Carneiro Monteiro.

15º Corpo de Voluntários da Pátria – cidade de Santo Amaro, Província da Bahia
O Tenente-Coronel da Guarda Nacional Antonio Joaquim Alves Pinto de Almeida ofereceu para organizar um Corpo de Voluntários em Santo Amaro. Recebeu também arregimentação da cidade de Nazareth.
Levou o 15º Corpo de Voluntários 29 oficiais e 334 praças, como comandante seguiu o Tenente-Coronel Antonio Joaquim Álvares Pinto de Almeida e como fiscal, o Major em comissão Antonio Pedro Heitor.
Foi incorporado ao Exercito sob o comando do Brigadeiro Manoel Luis Osório, passando a pertencer a 11ª Brigada, constituída dos 7º e 15º Batalhões de Infantaria e dos 15º, 20º e 21º Corpos de Voluntários da Pátria, contando com 26 oficiais e 255 praças.
Nas imediações de Concórdia, o 15º Corpo, passou a pertencer à 10ª Brigada de Infantaria. No acampamento de Mercedes, juntamente com o 1º Corpo de Voluntários, passou a fazer parte da 2ª Brigada.
No combate de Punta Ñaró, o 15º de Voluntários, achava sob o comando do Major em Comissão Gabriel de Souza Guedes, visto que o antigo comandante, o Coronel Antonio Joaquim Álvares Pinto de Almeida, havia sido designado Comandante da 18ª Brigada de Infantaria. Ao eclodir a guerra o Major era oficial do Exercito e comandava a 5ª Companhia do 12º Batalhão de Linha.
Nesse combate o Exercito Brasileiro teve 1.746 homens fora de combate, entre mortos, feridos, contusos e extraviados. Foram mortos o Coronel Machado da Costa, comandante do 31º Corpo de Voluntários, ex-Corpo Policial da Corte, e o Tenente-Coronel do Exercito José Martini, Comandante do 14º Batalhão de Infantaria.
No Combate de Islã Carapá, O 15º Corpo teve para mais de 80 indivíduos fora de combate, sendo que perto das trincheiras o Tenente Comandante da 8ª Companhia, José Cardoso Marques, perdeu a vida, além dele os mortos: o 1º Sargento Umbelino Isidoro Rodrigues, o 2º Cadete 2º Sargento Lúcio Ferreira Dória; e sendo feridos: o Capitão da 7ª Companhia, Salvino Antonio de Oliveira, o Alferes Secretário João Batista Pereira Marques. O Comandante da 18ª Brigada Tenente-Coronel Gabriel de Souza Guedes faz menção honrosa ao: Major Sezefredo Ataliba Galvão; Capitães Francisco Pereira de Miranda Filho, Luís pereira da Silva Duarte e Luís Joaquim da Silva Pinto; Tenentes Antonio Jose de Moura, Felisberto de Oliveira Rocha, José Jorge Perrucho, João Fernandes de Sampaio Junior e Aurélio Augusto Carlos Bezerra; Alferes Pedro Borges de barros, Alirio da Cunha Barbosa, José de Andrade Freire, Francisco da Silva Fialho; Bráulio Fernandes Pessoa, Satiro Célio Ribeiro e Cecinio Antonio Pereira Pitta; 1º Sargento João King; Sargento-Ajudante Ricardo Augusto da Silva; 1º Sargento Francisco Pinto Saramayo e o 2º Cadete Candido Borges de Barros.
Pelos combates de 16 e 18 de julho, foram concedidas pelo Decreto de 13/04/1867 às seguintes condecorações: Ordem da Rosa, grau de Comendador, ao Tenente-Coronel em Comissão Gabriel de Souza Guedes; grau de cavaleiro, ao Tenente Antonio Jose de Moura e ao Alferes Cecínio Antonio Pereira Pitta; com a Ordem de Cristo, grau de cavaleiro, Alferes Secretário João Batista Pereira Marques.
Em 22/08/1866 foi nomeado o Major em Comissão Aurélio Joaquim Pinto para fiscal do 15º Corpo de Voluntários.
Com a dissolução da 18ª Brigada de Infantaria, passou o 15º e o 38º Corpos de Voluntários para a 12ª Brigada. A 6ª Divisão de Infantaria, do Brigadeiro Vitorino José Carneiro Monteiro, passou a ser a 4ª.
Pela Ordem do Dia nº 14, o Marques de Caxias, em 20/12/1866, alterou a designação numérica dos Corpos, recebendo o 15º Corpo a designação de 45º Corpo de Voluntários da Pátria.

16º Corpo de Voluntários da Pátria – Província de Goiás
Oriundos da cidade de Goiás, capital da Província de Goiás, forneceu um Corpo de Voluntários da Pátria. Simultaneamente a criação do desse Corpo, o Governo Imperial autorizou o General Osório a criar, cem Montevidéu, com elementos estrangeiros ali residentes, um Corpo de Voluntários, tendo recebido a designação de “Batalhão de Voluntários Auxiliares”, mas que, com o correr do tempo e o desaparecimento prematuro do 16º Corpo de Voluntários de Goiás, passaram a usar essa denominação.
O 16º de Goiás eram composto pelos: Tenente-Comandante José Inácio Pinheiro, Alferes do Batalhão de Caçadores da Guarnição de Goiás; Alferes Comandantes de Pelotão: 1º Pelotão – Joaquim Cavalcante da Silveira; 2º Pelotão – Vicente Miguel da Silva, que era 1º Cadete. A 2ª Companhia, Ato de 16/08/1865, era formada: Comandante, o Capitão João Paulino Lopes Seixas, tenente do 2º Batalhão de Caçadores; Tenente Jorge Jose Artigas, Alferes do 2º Batalhão de Caçadores; Alferes, comandantes de pelotão: albano de Oliveira e Silva e José Ribeiro Gomes de Azevedo; o primeiro era 2º cadete, 1º sargento do 2º de Caçadores e o segundo era voluntário.
A 3ª Companhia, Ato de 23/11/1865, era formada: Comandante, o Capitão Antonio augusto Nogueira de Baumann, então Alferes do Corpo de Guarnição de São Paulo; Tenente José de Oliveira Calheiros de Albuquerque, que era alferes do 2º de Caçadores; e Alferes, Luis Augusto Pinto de Souza, que era 2º cadete do 1º Regimento de Cavalaria Ligeira, e Francisco Manoel de Araújo Sobrinho, 2º sargento do 1º Regimento de Cavalaria Ligeira.
A 4ª Companhia foi formada pelos: Capitão Comandante João José de Almeida, que era Tenente da Guarda Nacional; Tenente Francisco da Rocha Maia era 2º Tenente de Artilharia da Guarda Nacional; Alferes José Ribeiro Gomes de Azevedo, 2ª Companhia de Voluntários, e João Quintino dos Santos, voluntário.
A 5ª Companhia foi formada pelos: Capitão Comandante Joaquim Martins Xavier Serradourada; Tenente José de Oliveira Calheiros de Albuquerque; Alferes, Luis Augusto Pinto de Souza, que era 2º Cadete do 1º Regimento de Cavalaria; e João Luis da Mata Oliveira Lobo, voluntário.
A 6ª Companhia: Comandante, o Capitão Lopes de Seixas; subalternos, o Tenente Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo, procedente do 20º Batalhão, e Alferes João Jose Leal, que era 1º Cadete do 20º Batalhão.
A 7ª Companhia: Comandante, o Capitão Antonio Marques Fogaça era Capitão da Guarda Nacional; Tenente Agríaco José de Azevedo, alferes do 20º Batalhão de Infantaria; Alferes José Parelha de Oliveira e Francisco d’Abadia Velasco, o primeiro era 1º Sargento do 20º Batalhão e o segundo fora do 1º Corpo de Voluntários da Pátria.
A 8ª Companhia: Comandante, o Capitão José Inácio Pinheiro, que era da 1º Companhia; Tenente Vicente Miguel da Silva; e o Alferes Custódio Pereira da Veiga.
Iniciaram marcha de Goiás para Mato Grosso, a 1ª Companhia do 16º Corpo, sob o comando do Tenente-Coronel Joaquim Mendes Guimarães, Comandante do Batalhão de Caçadores.



16º Corpo de Voluntários Auxiliar – Organizado em Montevidéu – Republica Oriental do Uruguai
De brasileiro o 16º Corpo de Voluntários Auxiliar teve apenas o comandante, o Coronel riograndense Fidélis Paes da Silva, a bandeira e as libras esterlinas para o pagamento do soldo da tropa. Durante muito tempo foi conhecido pelo apelido de “Batalhão dos Garibaldinos”, porque arregimentara voluntários de varias nacionalidades, mui especialmente italianos.
Formado por quatro companhias com os seguintes oficiais: Comandante, o Coronel Fidelis Paes da Silva; para Major, José Groppi, Tenetente-Secretario Francisco Policarpo dos Guimarães, Alferes-Ajudante, Emilio Cantoni, Alferes Quartel-Mestre, Clemente Aranti, Comandante da 1ª Companhia, Capitão Pedro Peruchino, Comandante da 2ª Companhia, Capitão Tomas Pizovano, Comandante da 3ª Companhia, Capitão José Martinoti, Comandante da 4ª Companhia, Capitão Fernando Lesner, para Tenentes: Antonio Sivoni, Fernando Capello, Domingos Bertoli e Casimir Arnald Lenc, para Alferes: José Besita, Antonio Castelli, Guilemo Iturri e Pedro Moro.
O 16º Corpo deu consistência ao Exercito do Brigadeiro D. Venâncio Flores.
Na Batalha de Yataí os paraguaios deixaram no campo 1.700 homens (cerca da metade do seu efetivo), 300 feridos e 1.200 prisioneiros; entre estes o Major Pedro Duarte, comandante da coluna. Os Aliados perderam 340 combatentes, os brasileiros tiveram 19 mortos e 34 feridos.
Nesse combate o Comandante do 16º Corpo de Voluntários figurou entre os feridos e foi para o hospital da Vila de Restauração. A designação coube ao seu imediato, Major Groppi.
O Coronel Fidelis Paes da Silva recebeu do Governo Imperial a Ordem do Cruzei, grau de oficial – Decreto 03/1866.
No Sitio de Uruguaiana o Corpo foi incorporado à Brigada Oriental do Coronel Leon Palleja, faziam parte também 4 unidades orientais: Batalhão Flórida, Batalhão 24 de Abril, Batalhão Libertad e o Esquadrão de Artilharia Ligeira.
Estavam presentes na rendição do Tentente-Coronel Estigarribia, no dia 18/09/1865, além do 16º de Voluntários, comandado pelo Major Groppi; o 2º Batalhão de linha, comandado pelo Major Manuel Cunha Vanderley Lins; o 5º Batalhão de Linha; o 7º Batalhão de Linha; 10º Batalhão de Linha, comandado pelo Capitão Manuel de Souza Burity; o 11º Batalhão Provisório de Infantaria, comandado pelo Tenente-Coronel José Antonio da Silva Lopes; 1º Corpo de Voluntários da Pátria, do Coronel José Rocha Galvão; 4º Corpo de Voluntários da Pátria, do Tenente-Coronel Dr. Francisco Pinheiro Guimarães; 5º Corpo de Voluntários da Pátria, do Tenente-Coronel Augusto Francisco Caldas; 3º Batalhão de Infantaria Montada, da Guarda Nacional de São Borja, depois 48º Corpo de Voluntários; e o 4º Batalhão de Infantaria Montada, da Guarda Nacional de Uruguaiana, mais tarde 49º Corpo de Voluntários da Pátria.
“O General Flores assumiu o comando de Vanguarda, passando para frente com os orientais e alguns corpos. Entre os batalhões de Flores havia um muito curioso, o de garibaldinos, organizados em Montevidéu. Não sei por que lhe deram tal nome, pois a maior parte dos que nele assentaram praça não conheciam, de certo, o herói italiano, nem de nome. Havia nas suas fileiras homens de todas as raças: polacos e hindus, turcos e espanhóis, portugueses e marroquinos, bascos, peruanos, piemonteses, unitaristas e napolitanos do partido dos Bourbons. Entre estes últimos, tive um bom amigo, o Alferes Luis Rapallo, inteligente como todo filho da bela Itália. Quando seu Corpo foi dissolvido, no Chaco em 1867, ficou adido ao Dezesseis onde se portou sempre muito bem. Depois da guerra, nunca mais soube do Rapallo, que suponho ter morrido em Mato Grosso. Dos meus companheiros, oficiais do Dezesseis, quase todos tiveram a sorte do bom oficial napolitano, que adotou a nossa pátria, e bateram-se por ela como o mais valente dos seus filhos. Desapareceram para sempre.”
A alcunha de “garibaldinos”, atribuída ao Corpo de Voluntários estrangeiro, tinha sua razão de ser. Giuseppe Garibaldi celebre patriota italiano que combateu pela unificação da Itália, primeiro contra a Áustria, depois contra o Reino de Nápoles, conduzindo a “expedição dos mil”, chegou ao Brasil como marinheiro da nau francesa Nautonier e aqui reuniu a um outro revolucionário, Luigi Rossetti, tendo ambos passado ao território da Província do Rio Grande do Sul, onde se alistaram nas legiões farroupilhas. Garibaldi, devidamente autorizado por Bento Gonçalves, praticou o corso e levou a revolução republicana à Província de Santa Catarina, participando de aventuras dignas de registro histórico. Conservou-se fiel aos princípios da Republica e Piratini de 1838, mas, antes mesmo do seu termo, estava o Condottiere em Montevidéu, a frente da legião italiana na defesa da capital, nos pontos avançados da praça, para os lados do Cerro e do Pantanoso. Tomando parte na expedição destinada à reconquista pelo rosismo dos núcleos populacionais da costa do Rio Uruguai, de Colônia ao Salto, o chefe carbonario, que em 1844-1845, contava cerca de 37 anos, levara 186 dos seus infantes italianos e mais 100 ginetes orientais do Coronel Baez. Vários sucessos marcaram a passagem de Garibaldi nas lutas contra Manoel Oribe, executante do ditador D. Manuel Ortiz de Rosas, que desejava submeter o Estado Oriental à sua vontade despótica.
Da data de suas andanças pelo Uruguai ao inicio da guerra do Império contra o Paraguai distavam apenas 20 anos.
Na Batalha do Estero Bellaco, o 16º Corpo de Voluntários, ainda estava sob o comando interino do Major italiano José Groppi, quando foi ferido deixando o Corpo a cargo do Capitão Antonio Servoi, que fez menção honrosa ao: Capitão Tomás Pizovano, da 6ª Companhia; os Tenentes Juan Junquer e José Beretta, comandantes das 1ª e 2ª Companhia; Tenentes Guilherme Iturri e Antonio Castelli, das 6ª e 5ª Companhias; os Alferes Antonio Ajam e Francisco Calabresi, das 1ª e 3ª Companhias; o Alferes Porta-Bandeira Luis Rapalo; o Alferes Quartel-Mestre Alexandre Rossi, que estando na Pagadoria do Exercito e sabendo que o Batalhão havia marchado ao fogo, voou ao Campo de Batalha e cumpriu com o seu dever; da 1ª Companhia, 1º Sargento Juan Ponti, furriel Miguel Cabilla e soldados Augusto Collignol e Juan Bordenave; da 2ª Companhia, 2º Sargento Benedicto Morel, furriel Teodoro Iriarte; cabos Tomás Torres e Gito Hormann e soldados Antonio Candido, Antonio Trigo, Lino Pereira, Adão Mayler, ferido, Francisco Alexandre e José Mac-Pachan; da 3ª Companhia, 2º Sargento Henrique Rosário, soldado Eugenio Lagallo; da 4ª Companhia, o Voluntário Indaleci Farias, que por três vezes teve o fuzil roto nas mãos, por balas do inimigo, o 2º Sargento Fortunato Infantini e o soldado Albino Berseco, ferido gravemente; da 5ª Companhia, 1ºSargento Antonio Caretti; da 6ª Companhia, 2º Sargento Domingos Cappi, furriel Charles Durand, soldado Jorge Belge, ferido.
O 16º Corpo de Voluntários teve 6 praças mortas, entre os quais o Cabo Vicente Martinelli, da 3ª Companhia; feridos, o Major José Groppi, o Capitão Tomás Pizovano e 6 praças; contusos, o Capitão Antonio Servoi, um 1º tenente, 1 alferes e 10 praças. Um total de 27 baixas.
No Combate de Islã Carapá, sob o comando do Major Pedro Perruchino, fez menção honrosa ao: Capitão de artilharia Antonio Carlos de Magalhães; Tenente de Artilharia Oriental Frederico Guilherme Dener, que com uma carabina em punho acompanhou o Batalhão até que as trincheiras inimigas; Capitão da 3ª Companhia, João Luis Ferreira, que recebeu um ferimento mortal no ventre; o Tenente comandante da 1ª Companhia Antonio Ajam, que fora ferido na cabeça; aos sargentos Juan Ponti, Natale Luis Lavagnini, Domingos Capi; furriel Miguel Cavilla; Cabo Troche e o soldado Monôzo.
Em 3/7/1866 o Capitão Pedro Perruchino foi promovido a Major Comandante do 16º Corpo de Voluntários. Com o restabelecimento do Major José Groppi, o Major Pedro Perruchino passou a fiscal da Unidade.
Em 20/12/1866, com a reforma introduzida pelo Marques de Caxias, o 16º Corpo de Voluntários foi transformado, então, em 43º Corpo de Voluntários, que recebeu novos contingente que possibilitaram organizar-se com oito companhias.





"A queda do Império Romano"

“Não estará seguro aquele que te esquecer
Que possa eu louvar-te ainda que o sol
Se torne escuro
Pois contar as glórias de Roma
É como contar as estrelas do céu’.

Rutilio Namaciano, século V.
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APRESENTAÇÃO

A presente dissertação volta seu foco de interesse na análise e produção do relatório do filme, The Fall of The Roman Empire, lançado no Brasil com o nome de “A Queda do Império Romano”, do diretor Anthony Mann.
O filme retrata o Império Romano na época do Imperador Marcus Aurelius, com toda glória, grandeza e luxuria, heroísmo, bravura, ética e valores. Ele tenta reunir as diversas nações que constituem o império, como forma de garantir a paz e a prosperidade de todos os envolvidos.
Marcus Aurelius embora ame Commodus como pai, tem certeza que o filho, seu sucessor natural, jamais seria um bom imperador para os romanos. Assim, ainda em vida, expressa o desejo, uma decisão difícil e perigosa, de que Livius, uma espécie de filho adotivo e leal comandante dos Exércitos Romanos do Norte, seja seu sucessor. Livius comunga dos mesmos sonhos de Marcus Aurelius.
Cleander assassina Marcus Aurelius por envenenamento. Lucilla tenta fazer com que Livius reclame o trono vago. Entretanto, a despeito de seu esforço, Commodus assume o trono do império romano, declara-se um Deus e manda matar qualquer um que seja ameaça.
A acessão de Commodus, e o começo do fim para a pax romana, com a política do pão e circo, a decadência que devorava a frente interna do Império e a ameaça dos povos bárbaros foram desgastando seu governo. Como seu pai previa, a administração de Commodus é um desastre, marcada pela corrupção e desmandos. Para agravar ainda mais a situação, o Império é assolado pela peste.
Lucilla cumpre a palavra de seu pai e casa-se com o príncipe de um pais amigo, para assegurar a aliança com Roma e a paz almejada. Livius passa a ser considerado inimigo de Commodus e de Roma. Ao ameaçar invadir Roma com seus Exércitos, o Imperador manda prender-lo, ao mesmo tempo em que seu exercito vai até as Portas da cidade oferecer 3.000 dinares, em ouro, a cada soldado, como forma de conquistá-los.
Lucilla rebela-se com o que está assistindo e grita que todos estão traindo a imagem de seu pai. Commodus ordena que ela seja acorrentada a um poste, junto com Livius. Em seguida, achando-se um deus invencível, vai até Livius e o desafia para uma luta até a morte. Os dois se enfrentam e a luta termina com a morte de Commodus.
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SUMÁRIO


APRESENTAÇÃO
1. DADOS GERAIS
1.1. FICHA TÉCNICA
1.2. ELENCO
2. RECURSOS UTILIZADOS
2.1 TRILHA SONORA
2.2. FIGURINOS
2.3 PAISAGEM
3. PERSONAGENS
4. ANALISE
5. BIBLIOGRAFIA
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1. DADOS GERAIS

1.1 Ficha Técnica:

Título no Brasil: A Queda do Império Romano
Título Original: The Fall of the Roman Empire
País de Origem: EUA
Gênero: Aventura
Tempo de Duração: 172 minutos
Ano de Lançamento: 1964
Direção: Anthony Mann
Produção: Samuel Bronston
Roteiro: Ben Barzman, Basilio Franchina, Philip Yordan
Fotografia: Robert Krasker
Trilha Sonora: Dimitri Zinovich Tiomkin
Edição: Robert Lawrence
Design de Produção: Veniero Colasanti, John Moore
Figurino: Veniero Colasanti, John Moore
Efeitos Especiais: Alex Weldon
Locação: Cinecittá (Itália)
Prêmios: Globo de Ouro - Prêmio de Melhor Trilha Sonora Original
Indicações: Academia de Hollywood - Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
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1.2 Elenco:

Atriz/Ator Personagem
Sophia Loren Lucilla
Stephen Boyd Lívius
Alec Guinness Marcus Aurelius
Chritopher Plummer Commodus
James Masson Timonides
Anthony Quayle Verulus
John Ireland Ballomar
Omar Sharif Sohamus
Mel Ferrer Cleander
Eric Porter Julianus
Finlay Currie Senador
Andrew Keir Polybius
Douglas Wilmer Niger
George Murcell Victorinius
Norman Wooland Virgilianus
Michael Gwynn Cornelius
Virgilio Teixeira Marcellus
Peter Damon Claudius
2. RECURSOS UTILIZADOS

2.1 Trilha Sonora:
Composta por Dimitri Zinovich Tiomkin, ucraniano, que imigrou para os EUA durante as turbulências da Revolução Russa.
Com os mais de 150 minutos de composição, Dimitri, ganhou o Globo de Ouro, em 1965 e recebeu a indicação ao Oscar, de 1965, em estilo “gimmick um score” (em voga na década de 60). Tomando por base o órgão solo, Tiomkin introduz seu principal tema, intitulado “A queda do Amor”, em cordas, esse tema deverá repetir-se durante toda Queda do Império Romano, ocasionalmente, em contraponto na forma como acertadamente chamada “Tarantella”, que acompanha a carruagem no furioso duelo entre Commodus e Livius.
A “Pax Romana” sublinha uma longa cena em que, um grande número de líderes estrangeiros, sob autoridade da Roma, são convocados para um encontro com o líder romano. No que passa por cada um e trocam saudações. No retorno de Commodus, a Roma, como novo imperador, ouvimos o “Forum Romano”.
Em “Ballomar Barbarian's Attack”, Tiomkin utiliza uma gama alargada de tambores; já em “Ressurreição”, um sublime lírico, é a peça de música para a morte de Marcus Aurelius.
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2.2 Figurino:

Composição realizada por Veniero Colasanti e John Moore, contendo césares, centuriões, gladiadores, senadores e povo.
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2.3 Paisagem:
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A fotografia do filma retrata um pouco do domínio romano, mostrando o Coliseu, a arena dos gladiadores, o senado romano, o céu acinzentado do frio europeu, o palácio de Marcus Aurélio e depois de Commodus, as lutas contra os bárbaros. Sua locação teve por base a Espanha, o acampamento de inverno no Danúbio; a Batalha dos quatro exércitos, na planície de Manzanares el Real, que permitiu um grande número de soldados visível a grande distancia; o Fórum Romano em Latas Matas, perto de Madri, com 400 X 230 metros. As diferentes configurações de Roma antiga abrangiam 55 acres.
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3. PERSONAGENS
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Marcus Aurelius – Imperador de Roma, tem dois filhos Commodus, que será declarado imperador com sua morte, e Lucilla. Tenta unificar os povos, selando com eles a paz. Acaba sendo enveneado por Cleander, para que não deserde Commodus em favor de Livius.

Commodus – filho do Imperador Marcus Aurelius, incentivador da lutas na Arena de Roma, praticante da filosofia Pão e Circo para o povo, torna-se imperador com a morte de seu pai, mergulhando Roma no caos político e administrativo.

Lucilla – filha de Marcus Aurelius e Faustina, irmã do futuro imperador Commodus, casa-se com um príncipe da Armênia para selar a aliança; é apaixonada por Lívius e pelas ideais de seu pai; tenta fazer com que Livus seja declarado Imperador no lugar de seu irmão, sem êxito, mais tarde tenda guerrear contra Roma, com sua derrota tenta matar Commodus, sendo presa junto a Livius na fogueira.

Lívius – uma espécie de filho para o Imperador Marcus Aurelius, Comandante do Exercito Romano do Norte, apaixonado por Lucilla e compartilha das mesmas idéias do Imperador. Consegue selar a paz com os Bárbaros até que o Imperador Commodus para vingar-se destrói a aldeia e extermina seus moradores. Livius revolta-se contra Roma, mais é preso, e obrigado a duelar com Commodus, que acaba morte.

Cleander – cego, homem de confiança, assassina Marcus Aurelius através de uma maça cortada com um punhal envenenado, para que Livius não seja declarado Imperador no lugar de Commodus.
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4. ANÁLISE
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A Queda do Império Romano, 1964, torna muito claro o não estabelecimento de qualquer fidelidade histórica, a história do que seria o reinado de Marcus Aurelios, um dos últimos grandes imperadores, até os últimos momentos desse Grande Império, com ascensão do imperador Commodus, filho do imperador Marcus Aurelius, que passa por egocêntrico, ao se declarar ‘deus’ e mal preparado para o exercício do Poder.
Na história literal não há nenhuma prova do envenenamento de Marcus Aurelius, ele teria morrido de infecção contraída em Vindobona, pela faca com veneno em uma das laminas, passada numa maça oferecida ao Imperador. Nem que tenha no seu leito de morte invocado outro sucessor que não seu filho.
Historicamente havia muitas razões para a queda do Império Romano, crimes de violência, ruas inseguras, a sede de poder e luxo. Imperadores como Nero e Calígula se tornaram famosos por desperdiçar dinheiro em diversos eventos, como as dos gladiadores no Coliseu.
A guarda pretoriana adquiria completa autoridade, inclusive para escolha de novos imperadores, que recompensava, fazendo mais influente e perpetuando um circo vicioso, a ponto de vender o trono para o maior lance.
Marcus Aurelius, escritor e filosofo, é descrito como o último bom imperador, que dá inicio a campanha pela ‘paz’, com a sua morte, os romanos, experimentariam o terror pelas mãos do tirano Commodus, que abandonou a política de seu pai, de renunciar a conquista ou assimilação dos povos germânicos, com novos ataques e aumento de impostos, provocando revolta em muitas regiões fronteriças. Para amenizar dava ao povo ‘pão e circo’, alimento e arena dos gladiadores.
Livius, serve como catalisador cinematográfico da tensão entre Aurelius e Commodus, já que é um personagem fictício. A hostilidade entre Commodus e Livius alardeados por fortaleza militar e rodeados pela floresta escura e montanhas nevadas, com a seqüência da corrida de carruagens (bigas), contrapõem a seqüência da procissão triunfal de Commudus ao aproximar-se do Templo de Júpiter, relatando espantosa arquitetura, fazendo aflorar o poder divino de Commodus e a simplicidade da Casa do Senado Romano, onde vemos claramente o anacronismo, o mapa mundi no chão dessa casa, trazendo uma Europa dividida em países, conceito que não prevalecia na época do Império, elementos mais simples aos mais elaborados.
Alguns críticos, consideram A Queda do Império Romano, não do ponto de vista da crítica, mais como uma relíquia cinematografia, por apresentar gigantescos conjuntos construídos para servirem de cenário, gigantescos cenários pintados, ao invés de utilizarem imagens geradas por computador.
A Queda do Império não teve um evento, mais a conjuntura de governantes, mandos e desmandos, impostos altos, o cristianismo crescente, as invasões bárbaras, no filme é retrato na figura de Commodus, egocêntrico e não preparado para o poder, que tem que enfrentar uma serie de obstáculos para manter a integridade do Império. E sua ruína tem como base a ambição e o egoísmo, no inicio a guarda era utilizada para conquista de terras e escravos, depois para manter seus próprios interesses frente ao interesse do Império.
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5. BIBLIOGRAFIA

http://www.musicweb-international.com/film/2000/may00/may00scr1.htm. Acessado em 11/05/2008.
www.thegalerii.com/Historic. Acessado em 11/05/2008.
The Fall of the Roma Empire. A queda do Imperio Romano: 1964, filme.

7 de Setembro em Cuiabá


Paraquedista do Exército


Helicoptero da PF


Exército


Tanque do Exército


Policia Militar de Mato Grosso


Policia Militar de Mato Grosso


Bombeiro Militar de Mato Grosso


Bombeiros Voluntários Indigenas